Egas de Encerra-bodes, que estivera, a um lado, rindo debaixo de uma dobra do cobrijão, deu dous passos para a retaguarda do linheiro, e fez um gesto ao «terra-nova». O cão começou a tirar com os dentes pelas abas do paletó de Antonio José, e este a sacudir-se, e a florear a bengala, que infelizmente embarrou no focinho do animal. O remate d'este episodio foi cousa triste de contar-se. O linheiro, se não tem botas de cano alto, sahiria com as canellas estrincadas; e póde ser que os dentes do «terra-nova» procurassem afiar-se em porção das pernas, não abroqueladas das botas, se Egas lhe não fallasse de modo que elle, de cauda cahida, veio rastejar-lhe aos pés.

Terminou isto por ir o misero queixar-se ao regedor que alli estava perto, homem de bom siso, que se dirigiu a Egas, pedindo-lhe que fizesse saber ao seu cão que nem todos os cidadãos traziam botas de cano alto.

Francisca da Cunha, fugindo para perto de Silvina, podéra forrar-se á vergonha de semelhante conflicto; apenas dissera ao commendador que um doudo furioso a perseguia em toda a parte; e, citando o nome do doudo, viu, com grande pasmo de Silvina e d'ella, erguer-se o commendador, e descer agilmente as fragas resvaladiças, para se entremetter na desordem, que encontrou no periodo final do cão arremettendo ás pernas do seu amigo.

Aplacado o incidente, entraram Silvina e José Francisco, cada qual em sua barraca, para se vestirem.

Leonardo Pires dirigiu-se a um banheiro, e pediu sem demora um fato de banho alugado. Vestiu-se, e sahiu da sua barraca a tempo que o commendador, a par de Silvina, entravam no mar. Seguiu-os, e passou-lhes adiante, indo postar-se n'um ponto em que as ondas batiam mais fortes, e onde só os nadadores ousavam esperal-as. Quando a onda vinha, Leonardo mergulhava, e vinha com ella, até marrar nas pernas de José Francisco. Erguia-se, sacudia a grenha, pedia perdão e tornava para o seu posto. José Francisco retirava-se a um lado; mas, na volta de outra onda, a marrada era infallivel. Á terceira vez, o brazileiro ladeou, quando viu mergulhar o monstro da Maya; este, porém, nadando com os olhos abertos, lá foi abalroar com o homem, e pedir perdão pela terceira vez.

José Francisco esbofava no mar como tubarão ferido. Sahiu á praia atordoado, em quanto Silvina, estranha ao successo porque ficára longe do noivo, se deixava contemplar pelos olhos lagrimosos de Jorge, que a via, resguardando-se de ser visto.

Leonardo Pires, no perpassar por ella, disse-lhe a meia voz:

—Jorge de Sepulveda está acolá, minha senhora! Anda aquelle seu bom anjo a quer salval-a de um eterno ridiculo, e v. exc.ª a cahir, a cahir, a cahir, n'um dos tres abysmos das tres barrigas de José Francisco Andraens!...

CONCLUSÃO.