Valentina consternada respondeu á carta de seu primo descrevendo-lhe o succedido, e a inutilidade de seus esforços; mas para o não desanimar promettia-lhe de os renovar, e que os repetiria até que chegasse a mover seu pai á commiseração e piedade, de que não desesperava. A carta continha tambem a descripção de todos os successos, que se tinham dado desde que Roberto tinha desapparecido; a decadencia de Emilio da Cunha, a pobresa em que tinham vivido em quanto que o seu trabalho mal retribuido lhe dava parcos meios de subsistencia, e o melhoramento de sua posição, finalmente continha tambem algumas palavras d'exhortação e amisade.
A situação de Emilio da Cunha e sua filha soffreu, passado algum tempo, uma modificação muito mais inesperada, do que a que se havia seguido ao aniquilamento da sua fortuna.
Emilio da Cunha foi chamado a casa d'um capitalista, aonde lhe entregaram 20 contos de reis de que um anonymo lhe mandava dar posse a titulo de restituição. D'onde tinha vindo este dinheiro?
Emilio da Cunha pensou muito naturalmente, que o procurador que o tinha roubado, mortificado pelo remorso, e querendo socegar um pouco a sua consciencia, lhe tinha mandado entregar aquella quantia, como uma parte da restituição, que lhe tinha a fazer. Valentina estava muito longe de concordar com a opinião de seu pai, mas nem por isso teve a franqueza de lh'o declarar, nem lhe dar a entender qual era a sua.
Qual das duas opiniões era a verdadeira, é o que nos não importa saber, o que se sabe é que a abastança ou decencia tinha reentrado em casa d'Emilio da Cunha, e as idéas do digno e honrado velho, foram-se tornando mais brandas sob a influencia do bem-estar.
Foi elle proprio que em um dia fallou primeiro a Valentina em seu primo Roberto, e ella não perdendo esta occasião tão propicia, que se lhe offerecia, advogou por muito tempo, com calor e eloquencia, a causa de seu primo. Emilio da Cunha deixou-a fallar como e todo o tempo que ella quiz, sem lhe dar a mais pequena resposta, nem lhe replicar a cousa alguma.
Estaria ou não convencido?
A pergunta não tinha muito facil resposta, mas pelo menos tinha ouvido sem colera e com socego as allegações a favor de seu sobrinho, o que já era um bom indicio da mudança que n'elle se havia operado.
Valentina, contente e satisfeita com o resultado do seu primeiro commettimento, escreveu immediatamente a seu primo informando-o do que havia, e a esta carta seguiram-se outras muitas, noticiando-lhe sempre algum novo passo dado na estrada da reconciliação.
Aconteceu um dia que Emilio da Cunha, no meio d'uma conversa, que tinha seguido n'um objecto mui diverso, parasse precipitadamente para dizer a sua filha: