N'este momento surprehendeu elle um olhar d'intelligencia, que Valentina dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira em que estava sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito, ouviu-se o nome de Roberto.
Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho melhor a poderá imaginar, do que eu pintar-lh'a, ou descrever-lh'a.
Roberto voltava honrado e rico. Julgo que já comprehendeu que, para soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da restituição.
D. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela sua historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella tinha expendido antes de começar.
—Ah!—lhe disse eu com admiração sincera—v. exc.ª podia facilmente escrever um romance.
—Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha historia como producção da minha imaginação e phantasia?
Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a nossa discussão.
No dia seguinte D. Mafalda offereceu-se para me apresentar a um seu sobrinho, proprietario d'um estabelecimento industrial importante nos suburbios do Porto. Aceitei gostosa e promptamente. Fui recebido com extrema bondade e franqueza. O sobrinho de D. Mafalda gosava uma felicidade digna de ser invejada; era casado com uma mulher, que era um anjo de belleza e bondade, e tinha um filho o mais lindo e traquinas que se póde imaginar; o seu estabelecimento florescia e prosperava; o seu nome figurava entre os principaes e os mais honrados do mundo commercial e industrial, n'uma palavra nada faltava á sua gloria, fortuna, e felicidade domestica.
—Que pensa de meu sobrinho?—me perguntou D. Mafalda, quando nos retiramos.
—Ah! minha senhora, nada mais ambiciono do que poder imital-o.