—Que livro estás lendo, com tanta attenção, minha menina—lhe disse a viscondessa.
Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:
—São as Meditações religiosas de Rodrigues de Bastos.
—E encontras grande prazer na sua leitura?
—Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á borda d'um regato, ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se põe em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero.
A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.
—E que mais costumas lêr?—perguntou D. Julia.
—Não tenho muitos livros. Além d'este possuo um cathecismo, uma vida de santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de geographia, que me deu o mestre escóla da minha freguezia, mas que não leio, por que tem muitas palavras, que não entendo.
—Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruires. Se te proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz?
—Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossivel, porque, para ir todos os dias á mestra, é preciso ser muito rica.