Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e estava resolvida a tomal-a sob a sua protecção, se D. Thereza a isso se não oppozesse.

—Primeiro que tudo—respondeu D. Thereza—desejo a felicidade e venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me d'ella: porém, se fôr sua vontade, não me opponho, por que julgo lhe procuraes a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não prohibireis vir algumas vezes visitar-me.

—Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar.

D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:

—Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha?

—Pois vós, senhora—respondeu Rosa tremula e timida—quereis mandar-me embora?

—Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina da cidade, instruida e de maneiras polidas?

—Não, minha senhora. Nunca—disse Rosa chorando, lançando-se nos braços da sua bemfeitora—nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de me instruir e de aprender, mas, se para isso é necessario o deixar-vos, antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora, quando eu e a minha querida avósinha, estavamos quasi a morrer de fome, e havia de ser tão ingrata, que, quando principio a servir d'alguma utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos deixarei.

—Ouvistel-a, minhas senhoras—disse D. Thereza enxugando os olhos, razos de lagrimas.

—Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?—lhe disse a viscondessa.