A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguem seria capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi morrendo de fome e frio, e podendo apenas suster-se em pé, encontramos seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.

A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta, prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.

—Não vos incommodeis, boa mulher—-lhe disse a viscondessa—permitti-nos sómente que conversemos por um instante convosco.

—É muita honra para mim, minha querida senhora;—respondeu a cega—estou portanto ás vossas ordens.

—Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a vossa neta?

—Se estou contente com a minha Rosinha?!—exclamou a cega—-com ella, que é a minha benção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia o que havia de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avósinha, eu conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa nos ha-de recolher. E foi verdade.

A snr.ª D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a Deus todos os beneficios e bençãos, teve a caridade de recolher em sua casa uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando até o coração, commovem e decidem á compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui nos achamos. Fio um pouco para não estar em descanço; mas Rosinha, senhora, Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até á noite. Em quanto que dura o verão, occupa-se a colher flôres na serra e no campo, e a fazer cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que, quando se recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a cozinhar, e se quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia muito tempo.

Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não chegas a mim para te dar um abraço?

Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se retirado, quando a avó começára a elogial-a.

A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou.