—Sim, sim, minha menina,—lhe respondeu a snr.ª Maria da Gandra—Não preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como obtiveste essas inscripções?
—A snr.ª D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis, com os quaes a snr.ª D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou duas inscripções em meu nome.
—Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir ao vosso quarto.
Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.
A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e trabalhadeira, que a snr.ª Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que lhe podia apparecer.
No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza, Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.
Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não pôde reter as lagrimas.
Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos dinheiro, do que imaginava.
Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava um accento de triumpho.
—Bem certa estava eu,—disse ella—que esta velhaca havia de ter empalmado alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe.