—Direi mais, acrescentou o academico, enclavinhando os dedos para ajustar as luvas, e tirando pelas lapelas da casaca a puxões de gentil effeito—direi mais a v. exc.ª que me chamo Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque, a minha casa é na Maya, e costumo passar as ferias no Porto, porque sou avesso á vida pastoril, e não tenho senão mediocres tendencias para admirar a natureza bruta...
—Não é poeta?—interrompeu Silvina, ageitando o lindo rosto a um ar de zombeteira admiração.
V.
—Se sou poeta!...—disse Pires, enviezando para o estuque do firmamento olhos de lastima.—A poesia é flôr muito delicada, que o primeiro vendaval do coração desfolha. Desfolhada a primeira flôr, o vaso que fica não tem seiva para outra: é como a terra ferida de maldição.
—Isso é triste—acudiu Silvina, tregeitando com a cabeça e olhos umas gaifonas piedosas.
—Tristissimo, minha senhora!
Agora eram de victima os ares do Fausto da Maya, e a dama já pedia a Deus que não viesse para junto d'ella a prima, com medo de espirrar uma d'aquellas casquinadas de riso, que a mais sisuda prudencia não refreia.
Jorge Coelho, no entanto, sem bem saber o que o impacientava, não podia tolerar a detença do amigo. «Se eu soubesse dançar—dizia de si para si o academico—teria feito o que fez Pires... Será de mim que elles estão fallando? É natural, porque a vejo fitar-me com attenção... Se me eu avisinhasse, daria melhor occasião a Pires de me apresentar...»
E, obedecendo á hypothese, deu alguns passos; mas tão a medo o fazia, que antes parecia querer que o não vissem. N'isto, já o amigo o andava procurando, e Silvina, vendo a direcção errada de Pires, acenou-lhe de longe, indicando com disfarce onde estava Jorge.