—Deixe fallar o seu amigo que me está encantando com a singelesa do que diz...
—Eu retiro-me, minha senhora—disse Pires, arqueando-se—porque estou compromettido para a seguinte polka.
—Tambem eu...—disse Silvina, já quando o par se avisinhava, ao qual pediu desculpa, de não dançar, por causa de uma forte dôr de cabeça. E voltando-se para Jorge, que não soubera avaliar a fineza do fingido incommodo:
—Tem aqui esta cadeira... Sente-se, e conversemos da sua familia, porque talvez precise desafogar saudades d'ella em coração que o comprehenda.
Jorge cobrára alento com este ar de familiaridade. Fez-se para elle profundo silencio em todo aquelle borborinho da sala.
Era a primeira vez que se via em face de uma mulher, que lhe não chamava irmão ou filho; e, todavia, tanta ingenuidade fraterna respirava o rosto de Silvina, que, por encanto, o timido moço, sem forcejar contra o enleio da alma, tirou de lá expressões de sorte affectuosas que nem os mais destros comicos de sala as diriam assim.
—Tem muitas saudades dos seus, snr. Jorge?—disse Silvina com brando mimo.—Está ancioso por chegar aos braços de sua mãi?
—Quizera que v. exc.ª a conhecesse—disse Jorge maviosamente.—Havia de amal-a... que minha mãi está tão longe d'este mundo brilhante, vive d'um modo tão differente do das pessoas educadas como ella foi, que me faz dó o que era e tem sido ha vinte annos, contando hoje apenas trinta e seis, n'uma aldêa, sem outra convivencia senão a de seus filhos, e sempre magoada das saudades de meu pai... Ha duas horas que penso em v. exc.ª e n'ella...
—Em mim?—atalhou Silvina, com sorriso de bondade—lisongeia-me infinitamente a companhia que me deu no seu pensamento; mas poderá dizer-me que analogia de imagens achou entre mim e sua mãi?
—Immensa, e não sei dizel-a. Se eu podesse bem interpretar este sentimento mysterioso, diria, d'outro modo, que hoje, pela primeira vez, se espelharam em minha alma duas imagens de mulher. Até ha pouco, havia lá a de minha mãi sómente, e os traços informes, a sombra, o indefinido do ser que vaga entre o céo e a imaginação do poeta. Agora...