—Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e estilo, amigo Jorge, são o alpha e omega d'esta humanidade perfeita em que tivemos a dita de cahir das nuvens. De que diabo serve a rhetorica com que estragamos a memoria em Coimbra, não me dirás?! Se o padre Cardoso, que fez um compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu que eu sou um parvo e que me não hei-de vingar da Francisca da Cunha! Diante d'estes talentos brutos, sem mão d'obra, como é o da tua Silvina, os Quintilianos e os Longinos ficam no tremedal da sua protervia explicando a enallage e o hyperbaton. Oh! o estilo é muito mais a mulher que o homem! Eu dispensava bem tres partes do coração na mulher que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha lá nada mais lindo? A formosura fenece como as flôres; o estilo fica. Silvina, a eloquente Silvina, quando de pura velhice não tiver aquelles dentes de marfim e esmalte, ficará com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto do cysne. Tu és feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas vascas da morte. Estás sem vintém?

—Não; meu tio padre mandou-me cincoenta mil réis para lhe eu comprar dez volumes da Encyclopedia Catholica, e eu...

—Já devoraste cinco volumes em rost beef, e luvas brancas e charutos, não é verdade?

—E minha mãi encommendou-me duas peças de durante, e não sei que mais, que está esperando ha oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que me fez pena e saudade...

—Tem estilo?—interrompeu Pires, sentando-se estabalhoadamente.

—Não brinques com cousas sagradas: minha mãi não tem estilo, e n'esta carta o que me diz é copiado do seu livro de orações.

—Ora essa!... Isso é original! Deixas-me vêr a carta-jaculatoria de tua mãi?

—Deixo... Aqui a tens... eu leio.

Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte:

«Abro o meu livro de orações e copio estas palavras para que meu Jorge as leia:—A infeliz mãi, cujo filho começa a frequentar as sociedades põe toda a sua esperança na protecção de Maria. Começa o joven mancebo por alguns desmanchos que fazem conceber grandes receios ácerca do restante da sua idade. A mãi assim lh'o diz, e dá os mais ternos conselhos; elle, porém, rebella-se contra aquelle tão puro affecto, contra aquella dolorosa previsão de mãi, e assomando-se lhe pergunta porque duvida de sua honra e prudencia, e acrescenta: Parece-vos o meu comportamento reprehensivel, porque não frequentaes a sociedade: eu faço o que fazem todos.—Infeliz!—a mãi exclama—que te deitas a perder por isso que fazes o que todos fazem.—Ri o insensato dos temores maternos, e adianta-se ás cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo está posto em aventura: a honra n'este mundo, e a salvação no outro. Não sabe a mãi o que faça para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis angustias. Vê perdido o filho, e perdido para sempre. Maria, porém, consoladora dos afllictos se lhe mostra como dôce visão... E a mãi afflicta, de joelhos, com as mãos postas, exclama: «Ó Maria, auxilio dos christãos, salvai meu filho, rogai por elle!»—Jorge, eu orei com estas palavras: a Mãi de Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao coração. Vem, vem para nós: teus irmãos chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.»