Leonardo Pires respeitou a commoção de seu amigo, e principiava um discurso de molde segundo o caso pedia, quando o morgado de Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na roda do jardim, assomaram na porta.

—Temos duello—disse a meia voz, Pires, entalando no olho direito o aro circular da luneta e esguelhando a bocca.—Queiram entrar—proseguiu elle, adiantando-se para a porta—se é que entende com o meu amigo Jorge a honra da visita dos cavalheiros.

Egas de Encerra-bodes entrou e disse:

—Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena, da casa da Trofa, fidalgo tão antigo como o solar dos Lucenas. O snr. Jorge não me conhece. Eu sou primo do morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra para justificar o meu nascimento.

—Ha-de perdoar-me—disse Pires,—não precisava v. exc.ª dizer tanto para justificar o seu nascimento...—E atalhou logo a ironia vendo que o vulto do morgado se anuviava de mau agouro:—o senhor morgado é tido e havido na conta de muito bom sangue da provincia...

—E do melhor de Portugal—cortou logo Egas—Vamos ao ponto da nossa missão. Christovão Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr. Jorge Coelho se algum de seus avós lhe transmittiu o fôro que torna iguaes no campo da honra, nobre com nobre, as pelejas do pundonor aggravado.

Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir explicação da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso Clarimundo, quando Pires, sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre respondeu:

—Jorge Coelho herdou de seus avós a honra, é quanto basta. Na sala do palacio de Cintra não está lá o escudo dos Coelhos, porque o cobre a mortalha da

«..............misera e mesquinha
Que depois de ser morta foi rainha.»

—Deixemo-nos de lerias!—interrompeu Theotonio Tinoco.