A mulher, por via de regra, é de seu natural tão boa, sensivel e generosa, que chega a recompensar a pertinacia do homem que, primeiro, a nauseou: o segredo d'este paradoxo está na influencia contagiosa da tolice. A mulher que fez chorar o tolo, e viu rebentar lagrimas de uma cabeça de granito, cuida que fez o milagre de Moysés na rocha de Horeb. Alliciada pela serpente da vaidade, succumbe como Eva.
Que mudanças!
D'antes o caixeiro principiava sempre a carta de namoro por: Meu amado bem! Agora já diz: Anjo! ou Seraphim! Era d'antes a phrase sacramental do exordio: Vêr-te e amar-te foi obra de um momento. Agora não é raro encontrar d'estes arrojos: Amar e morrer é meu destino!
E, depois, o maleficio do romance não está sómente no plagiato irrisorio; o peior é quando as imaginações frivolas ou compassivas se entalham os lances da vida phantasiosa da novella, e crêem que a norma geral do viver é essa.
Em quanto a mulher estuda sómente a phrase que applica, bem ou mal, quando a enlouquece a vaidade de parecer o que não é, bem vai. Dá-se um exemplo: A apaixonada de um amigo meu, ao recebêl-o, pela primeira vez, em sua casa, no patamar da escada, antes de deixar-se beijar a mão, estendeu o braço direito em magestosa attitude, deu á frente a regia altivez de uma Phedra de aguas-furtadas, e disse em tom cavo e solemne: Juraes levar-me ás aras? O meu amigo, que balbuciava um prefacio de longo estudo, soltou um frouxo de insolente riso, e desceu as escadas, por não poder com o espectaculo da dama corrida do insulto. Eis-aqui uma que os romances de Arlincourt salvaram; quantas, porém, perdidas por guardarem as phrases ridiculas para o final?...
Grande mal é o identificar-se o espirito ás visualidades do romance. Quando a leitora se ri das crendices da sua infancia e dos absurdos principios que lhe apoucaram o imaginar e o voar do espirito, vem-lhe os enfados, o escutar as mentiras do coração que se emancipa, o crêr que a vida passada foi apenas um vegetar do vulgo, e que o viver da alma assim, será como o do arbusto bravio que dá flôres sem aroma, e fructos sem sabor.
Seja, outra vez, bemdita e louvada a ignorancia de nossas mães, e nossas irmãs, e nossas esposas!
A vida caseira, esta deliciosa monotonia, que a poucos é já saborosa no viver intimo, requer muita estupidez, muito somno a toda a hora, um estomago exigente e forte, muita digestão soporosa de substancias pesadas.
Esta bemaventurança ha-de restaural-a a ignorancia supina, não hão-de ser as palavrosas theorias de Michelet ácerca do amor e da mulher. Comecem os paes de familias por circumvalarem suas casas de um cordão sanitario contra a peste do romance, que não se abonar com a promettida pudicicia d'este, e de outros com que o author, coração aberto a todas as chimeras, e de entranhas lavadas, tem querido enxertar no tronco carcomido da humanidade toda a casta de virtude.
Vou lembrar um alvitre, cuja adopção poderia ser momentosa na regeneração dos costumes.