As reliquias das velhas virtudes portuguezas, se as ha, acham-se nos velhos, que beberam ainda as escorralhas dos seios puros do seculo passado. O Porto, de preferencia, graças á força refractaria da sua organisação, encerra boas quatro duzias de archontes dignos da Grecia antiga. Fôra facil eleger de entre estes—(abstenho-me de os nomear, porque a modestia n'elles dóe de insoffrida como ulcera em lombo de muar, e não é raro responderem ao elogio com o couce)—eleger d'entre estes, digo, uma corporação censoria, encarregada de examinar os livros, que giram no mercado, e referendar os que a juventude feminil podesse lêr sem deterioramento da innocencia. D'esta arte, os anciãos não restringiriam a sua egoista virtude á missão balda de condemnarem o vicio da mocidade inexperiente. O exemplo dão-no optimo; a doutrina é a que nós sabemos; mas não os devemos desquitar de se constituirem entulhos contra a torrente do vicio, desviando-a de levar ao regaço das futuras esposas e mães o romance peçonhoso.

Pelo que, d'aqui já sotoponho este livro á censura, e assim dou publico e voluntario testemunho de quanto venero as cãs e as virtudes. Fadario triste! A minha sina capricha, até hoje, em fazer-me malvisto d'esses que eu mais quizera bemquistar, ainda á custa de um panegyrico á corrupção senil dos raros que desgarram da trilha austera por onde a virtude os vai guiando ao céo, no qual os proprios anjos se espantam das colonias que vão d'aqui.

Porto—1858.

PRIMEIRA PARTE.
I.

«Em quanto ao fogo d'aquelle meu phantasiar de genio, fadado para desgraças, encendrei as imagens das formosas apparições da terra, as creações do meu espirito eram magnificas e brilhantes como as myriadas do céo estrellado.

«Eu tinha horas de tão dôce scismar! O ideal de Fausto, a melancolia do poeta d'Elvira, os coriscos de Byron, as satyras mordentes do Diabo-Mundo, as facecias elegantes de Fielding, e as vaporosas subtilesas de Senancourt! Ai! havia de todas essas feições do genio um traço de cada uma, no meu espirito.

«Mas, n'aquelle dia, á entrada do meu caminho, n'aquella noite calmosa, quando o sangue estuava nas arterias, quando as azas do coração, como as da aguia ferida, baixavam á terra, aquella mulher...

«A mulher fatidica! O despertar do sonho de dezoito annos. A Beatriz, a Laura, a Leonor, vingando-se na essencia d'uma, porque eu ousára crêr e dizer que mentira Tasso, e mentira Petrarcha, e mentira Dante.

«Que mulher! Bella? Ai! não, não é essa a palavra. Bella como a filha do anjo rebelde, a quem Deus vingativo dera o dom de crear a formosura que mata, o olhar das chammas magneticas do crime, a fascinação do abysmo onde o cahir é perder-se o homem para si, para a humanidade, e para Deus.