«Eu era poeta.

«Com que enthusiasmo eu pedia o meu quinhão na herança das celebradas agonias de tantas victimas de si, mansissimos cordeiros immolados no calvario do talento!

«Este augusto titulo, mercê do céo, rubricado por sello divino no coração do homem, tornou-se epitheto ridiculo ou injurioso.

«Gela-se-me o sangue, quando a ignorancia petulante faz um tregeito de menospreço ao talento, e diz: poeta!

«Mal sabeis que brutal atrevimento, ha ahi no tom de escarneo com que as bestas-feras insultam a intelligencia!

«Um bando de collarejas abrias, atirando-me em injurias a lama que lhes extravasa da alma, seria para mim harmonioso cantico das graças, comparado ao sorriso affrontoso do nescio que me diz: poeta!

«Ha ahi um rir do vulgacho, que dá em terra com a alma. Oh! o rir da gentalha maltrapida é menos fulminante que o escarneo da plebe engravatada, de todas as escorias sociaes a mais alvar e incorrigivel!»

Parou de escrever o meu amigo, quando eu entrava no seu gabinete de trabalho.

Este nosso amigo... Consinta o leitor a apresentação, e de amigo logo, porque eu sei que elle o é de conhecidos e desconhecidos, tirante os estupidos maus.

Este nosso amigo é uma afflicção permanente, um como pelicano que se está continuo espicaçando o peito para alimentar do sangue proprio seus filhos insaciaveis, suas imaginações escandecidas.