—Snr. padre João Coelho, disse alegremente Leonardo, pique o bucephalo cá para a frente.
—Alexandre Magno não montava machos, senhor estudante, respondeu o padre. Andaria mais acertado com a historia se me honrasse antes com as tradições de Sancho Pança. O machinho sabe que leva em cima um engenho velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada peça para o seu lado.
—Mas leva uma grande alma, replicou Pires.
—O macho? perguntou o padre, sorrindo.
—Sim, senhor.
—Lá em Coimbra estuda-se essa psycologia de veterinaria? As grandes almas passaram, pelos modos, dos Aristides e Catões para estes quadrupedes! Se assim é, que nos fica para nós, senhor academico?
—Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um cavalleiro com grande alma.
—Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o entendi; mas metti-me a engraçado a vêr se desafiava o riso, do meu pobre Jorge, que vai ahi melancolico, como nunca foi filho algum para os braços de sua mãi e irmãos.
—É que Jorge Coelho, tornou o estouvado infanção da Maya, está como a avesinha a pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e vacilla entre ir para a mãi que a está dentro chamando com o cibo, ou voejar para a arvore em flôr que a está enamorando de longe.
—É uma bucolica bonita que o senhor vai poetisando—tornou o padre, fechando o olho direito e sorvendo uma canora pitada pela venta correspondente.—A avesinha (se dá licença, eu componho em linguagem chan e fradesca uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a carinhosa mãi, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore florida; e, como quer que as forças lhe cançassem do desusado vôo, não teve a avesinha remedio senão abater-se ao chão para pousar. E vai n'isto, andava por alli á caça de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato ou gata; o essencial é que apenas o triste passarinho apegou, o animal damninho fez-lhe o salto d'entre umas balças, e o filho da pobre mãi, que se morria de paixão no ninho, lá foi empolgado pelo gato ou pela gata... Lafontaine não inventou este conto, e merecia a pena; não importa: compuzem'ol-o nós, snr. Pires, ad usum delphini, e seja delfim o nosso Jorge.