Pobre coração! Tão puras lagrimas não has-de choral-as mais. D'essa grande afflicção de que tu appellas para a morte, has-de lembrar-te sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os prantos do anjo, saudoso do céo. Na mulher que deixas, cuidas que te fica a santa companheira do Eden que a tua candura via na terra, aberto ao amor sem mancha, convidativo de santos gosos. De dez em dez annos pararás, no caminho da vida, peregrino da sepultura; voltarás o rosto para aquelle teu dia dos dezenove annos, e verás em flôres, fenecidas mas ainda graciosas, os espinhos por onde a pedaços te fica, meu pobre Jorge, o coração. Saberás então o que é a saudade; pedirás á desgraça dôres semelhantes ás da tua mocidade para abençoal-as; atirarás com o peito ás sarças das paixões vertiginosas para espertares os pungitivos desgostos do amor contrariado. Não já lagrimas, se não fel derramará o coração, que devêras ter dado a Deus, desde que o mundo t'o desbaratou a repellões e injurias. Chora, filho da sina maldita dos poetas, chora no seio de tua mãi; bem póde ser que ainda lá te espere o anjo da tua guarda.

Jorge Coelho não proferira uma palavra desobediente ao tio padre. Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as lagrimas antes de erguer o rosto disse:—Meu tio entende que me é honroso sahir do Porto sem responder ao desafio?...—Padre João, que abria o seu enorme lenço escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os braços suspensos, e o lenço pendurado, e assim esteve, como estupefacto cravados os olhos no sobrinho, que esperava a resposta. O nariz, porém, urgia: padre João Coelho levou o trombetear da limpeza até á hyperbole, dobrou o lenço em quadro, depois enrolou-o, deu com elle mais alguns torcegões ao nariz, armou-se de pitada, e disse:

—Não é Deus que os perde; é o demónio que ensandece aquelles que quer aproveitar. Que é honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do odio, das affrontas, das injustiças? O filho de Deus dictou e rubricou com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da humanidade; não importa ser o evangelho obra de Deus; não importa que alli venham prescriptas as maximas da boa e honrada vida: o evangelho é já inefficaz por que a humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello: a vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no sangue, justifica-se pelo homicidio, ao qual a legislação decreta a forca, e a convenção social o galardão da bravura. Jorge, quem te disse que o assassino era honrado?

O academico apenas respondeu:

—Meu tio, vamos; eu estou prompto.

Leonardo Pires já estava no largo da Batalha, chamando a attenção dos numerosos transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com as esporas cravadas nos ilhaes de uma égua de fina raça que se empinava, e corcovava, e atirava ora couces, ora galões medonhos. É que Leonardo Pires vira D. Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel Guedes, e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabeça, como de facto quebrou, e tão desgraciosamente o fez, que Francisca da Cunha, anciada de riso, dizem que cahira extenuada n'uma othomana.

Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos gallegos do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria da Estrella do Norte para a praça.

Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de amor, Pires montou de salto, e acompanhou até Vallongo o condiscipulo, com evidente desagrado do padre. No caminho, em quanto o egresso ficára atraz compondo os loros do macho fleumatico, o amador infausto de Francisca da Cunha disse a Jorge:

—Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a não mandar para a aldêa?

—Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos marejados de lagrimas—diz-lhe que eu não posso contar com a minha vida para lh'a offerecer. Diz-lhe que eu não fugi de cobarde; por quem és, Pires, não consintas que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de minha mãi, que eu sei que ella me amará ainda mais, vendo que eu respeito tanto as lagrimas da que me formou o coração que eu lhe dei, e ella achou digno de si. As minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as entregares... Silencio, que ahi está meu tio.