—Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu em tão pouco tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que sahiste dos braços de tua mãi, e venho-te encontrar na vespera de expôr o corpo e a alma com menos desculpa que o salteador que traz o peito á bala e o coração damnado pela perversidade!

E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de nobre authoridade e sorriso ironico:

—Quem são estes folgados rebentos de illustrissimas prosapias que vem aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia, estragando a alma de uma criança? Ouvi aqui nomear appellidos estrondosos que representam varões de grandes serviços á religião e á patria: é lastima que os netos dos Tinocos e dos Pachecos andem pregoando o desafio, o derramamento de sangue, como prova de honradas consciencias e altos espiritos. Melhor lhes fôra que as suas consciencias fossem mais christãs que honradas. Não se illustram memorias de avós derramando doutrinas impias. Se o seculo as aceita, senhores, então reneguem vv. exc.as das virtudes de seus avós, que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta civilisação, que por escarneo se chama assim, se conformam com os seus animos, não andem hypocritamente chorando saudades de Sião, os que se atascam nas immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua mãi: não quererá Deus que tu desobedeças á voz que te chama. Eu só quero exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua mãi chama-te: deves hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv. exc.as rogo eu mui humildemente que se não afflijam da perda de um noviço na confraria dos heroes do tempo. Costumavam nossos avós, antes de entrarem na cavallaria, velarem as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho vai armar-se cavalleiro, que não é ainda, e depois voltará á arena. Riem-se os nobres senhores? Velar as armas é sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da Mancha se deu por bem posto na sua missão, antes de armar-se cavalleiro no curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos arrieiros. Tens tu já Dulcinea, meu sobrinho? Claro é que sim. Ora, pois, aguarda melhores dias para as tuas façanhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser mais algum tempo bom filho, bom irmão, e bom christão.

Egas de Encerra-bodes já não estava muito de bons humores com o padre. Tinoco Pitta não o tinha entendido, e abria a bocca pela terceira vez. Leonardo Pires não se atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas e por vezes graciosas parvoiçadas que lhe vinham á flux da abundancia do coração. Jorge Coelho tinha tão de negro cerrado o espirito que não balbuciou palavra. Era impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina, sem levar comsigo a certeza de que a distancia não mataria n'ella a paixão nascente, isso era uma dôr que o pobre moço desafogou em pranto desfeito, passando ao quarto immediato que era o de Leonardo Pires.

O morgado de Matto-grosso, para evadir-se á posição embaraçosa em que se via, despediu-se com estas palavras:

—Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu sobrinho, que o offensor não tem imputação, attendendo á sua criancice, e mais ainda ao facto de a mãi o mandar chamar para o seu regaço, como criança que é desmamada de fresco.

—Não, senhor, atalhou o padre com seraphica brandura, diga ao senhor morgado de Santa Eufemia, creio que assim se chama o seu amigo, diga-lhe que seja generoso no perdão das injurias; que não desdoure os seus antepassados barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram; diga-lhe sobre tudo v. exc.ª que seja christão. Lembre-lhe que o desafio é uma ferocidade que nem se quer prova coragem, porque a verdadeira coragem é aquella admiravel abnegação dos louvores do mundo aos impetos da raiva, e valoroso louvavel aos olhos do Senhor é só aquelle que tem mão de suas iras, e desarma com humildade sem baixeza os féros e acommettidas do inimigo.

—Teu tio é grandemente lido nos classicos!—disse Pires, no quarto immediato, a Jorge Coelho, que enxugava as lagrimas teimosas.

IX.