«Nunca eu aceitaria—continuava a carta de Silvina—uma prenda de homem, que não tivesse uma explicação honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso, não me faz estremecer a mão de pejo. Os meus sentimentos a respeito de v. s.ª tenho-lh'os dito tantas vezes, que repetil-os seria abusar da sua attenção, e descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s.ª sabe como eu aprecio as paixões proprias dos meus annos...»
José Francisco Andraens deu dous galões no leito, e clamou:
—É ahi, é ahi onde está a cousa!
Christovão continuou, já deletreando, porque a raiva lhe nublava os olhos:
«Não creio na duração do amor impetuoso. A violencia da vibração fatiga as cordas da alma...»
—Olhe lá—atalhou o brazileiro—isso que vem a dizer? esse bocado não o percebi bem... A violencia da vibração fatiga as cordas... que diabo!...
—Quer dizer, respondeu o morgado com anciado esforço, quer dizer que... sim... eu acho que isto vem a dizer... que as paixões fortes adoentam a gente...
—Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu cá sinto os estragos no interior... Ora faz favor de vêr o resto.
O morgado leu:
«A minha ambição é encontrar um amigo verdadeiro, um coração sereno, um homem para quem o mundo não tenha abysmos, dos que tem no fundo a desgraça da esposa trahida, e esquecida. Receba no coração estas palavras da sua dedicada e constante amiga, Silvina.»