—Pois então, vou desembuchar... Eu tenho emprestado algum dinheiro ao Pedro de Mello, pai da Silvina, para elle mandar aos rapazes que andam a estudar p'ra doutores em Coimbra. A casa do Mello é boa, mas está empenhada até aqui.—(O snr. José Francisco poz um dedo na barriga n.º 3, que deu de si como um balão de borracha). Ha-de haver tres mezes que eu fui levar á filha umas libras que o pai lhe mandou dar para vestimentas. Eu andava com o olho em cima de uma quintarola bem boa d'elle, que parte com os meus terrões da Lixa, e não se me dava de lhe ir dando aos poucos algum dinheiro até lhe apanhar a propriedade que me faz muita conta. E vai se não quando, meu amiguinho e senhor morgado, veiu a fidalga á sala assignar o recibo, e p'ra'qui p'racolá, palavra puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco com ella e com a prima, e jantei lá n'esse dia, e fiquei p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua e crua, como o outro que diz, eu não sei o que sentia cá no interior! Que diabo é isto que eu sinto? disse eu cá c'os meus botões. Eu andei por lá por esses mundos de Christo, vi muita mulata e branca de encher o olho, tive as minhas rapaziadas, porque em fim, a gente é de carne e osso; mas nunca me buliu cá por dentro mulher nenhuma como esta! Se o senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe vêr se me lembro... Não encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu tenho alli uma carta d'ella...
—Uma carta d'ella!—interrompeu o morgado a fumegar.
—Pois então? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha lá uma em que ella escreve o mesmo que tinha dito de bocca. Faz o senhor favor de me ir áquella gavetinha do meio da commoda, e dar-me de lá um caixotinho de vidro, que tem uns bordados de papel dourado na cobertoira?...
Christovão Pacheco abriu com a mão convulsa a gaveta, e levou á cama do snr. Andraens a caixinha indicada. O brazileiro tirou um feixe de cartas, cintadas com uma fita de nastro, abriu algumas, regougando palavras soltas de cada uma d'ellas, e por fim acertou com a carta que procurava, e exclamou:—Cá está ella! tal e qual. Ora faz favor de lêr, que eu não estou hoje muito escorreito dos olhos.
O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e escarlate até á raiz dos cabellos, leu o seguinte:
«Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima Francisca, ella por amisade reconhecida, e eu do coração affectuoso lhe agradecemos o valioso mimo com que se dignou brindar-nos a sua generosidade...»
—Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas pulseiras de ouro que eu mandei ás duas, que me custaram dezesete libras e mais uns pósinhos, não fallando na caixota em que foram os estojos que me tinha custado em Paris quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro, não tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice:
O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de suor que lhe transpiravam da testa:
«Apreciamos a dadiva já pelo que ella vale, já pelos sentimentos delicados que ella representa...»
—Isso é bem dito, não é, ó senhor morgado?—interrompeu o snr. José Francisco.—Lá que ella tem uma cabecinha como não ha outra, isso pau pau, pedra pedra, a verdade ha-de dizer-se. O que lhe falta é miôlo... Ora ande lá... vá lendo: