—Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso então quando calha de fallar, aquillo não despega nem á mão de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha! Até em Sebastopool, senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu lá ido a troco cá de certa pendencia, e veiu á collecção a guerra da Russia, e ella começou alli a manobrar as batalhas, e se fôr como ella diz o snr. D. Miguel (Deus o traga) não tarda cá. Eu não tenho partidos, e até a fallar a verdade, sou commendador por esta gente, mas em fim, quero-me cá com os velhos, e gente como era a antiga já se não topa. Pois é verdade... eu...
—E a fidalga—atalhou o morgado—nunca lhe fallou em mim, snr. José?
—Fallou, pois então? disse-me até que o senhor queria casar com ella... é assim ou não é?
—Isso é verdade. Paixão de raiz como a que eu tenho por ella não a torno a ter pela mais pintada.
—Ah! que me diz?—acudiu o brazileiro com espanto—pois a cousa é isso? Quer apostar que o senhor está aqui pr'a-mor d'ella?
—Em fim, o coração não mente... Á conta d'ella é que eu aqui estou. Passaram-se uns poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu para o Porto. Arranjei como pude licença do pai, e vim encontral-a cá a namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar uma escovadela, mas antes de hontem fugiu lá para cascos de rolha.
—Conte-me isso, conte-me isso—exclamou José Francisco com vehemente interesse.
—É como lhe digo, snr. José. Agora preciso demorar-me alguns dias a ver o que ella faz.
—Com que então diz-me o senhor morgado—disse meditabundo e detidamente o brazileiro—que ella andava já com o miolo ás voltas por outro sujeito!... As mulheres são o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto é pedra que cahe em poço, ouviu o senhor?
—Eu não digo nada; póde fallar snr. José.