Ha ahi amadores, José Francisco, que cubiçam a pedraria oriental para construirem um nicho para a mulher amada; pedem a Deus estrellas para lhe marchetarem a alcatifa das botinhas; queriam a lua e as duas ursas para o pavilhão do leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos pés; os jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a mão soberana, e o diadema do universo para a fronte inspirada. Farelorio. Homem de Cozelhas! o teu estomago estragado pelo chá, sobreleva em dolorosa realidade a tudo quanto inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus, em quanto tu deixas em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete libras de pulseiras, ás quaes a propria Diana caçadora te estenderia os seus divinos braços.
Ai! se elle a amava!
Por uma tarde de Agosto, na alamêda da Lapa, se andava José Francisco passeando com o seu amigo visconde dos Lagares. A espaços, o amador de Silvina desprendia uns como gemidos desentranhados com estridor de arroto, e o açafroado das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora desmaiava n'um pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde:
—Que tem vossê, sôr Andraens?!—perguntou o trinchante da casa real, afervorando o zelo da pergunta com um suave empurrão.
—Que hei-de eu ter, amigo visconde? Vossê bem sabe que eu ando mettido n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que me lêram quando eu era rapaz, dá-me que eu hei-de passar por um grande desgosto. Até ao presente, em boa hora o digamos, a cousa não me tem ido mal; d'aqui por diante como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te não caias.
—Mas então vossê que medo tem?—tornou o visconde, variando a mimica com uma palmada na espadua boleada de José Francisco.
—Homem, vossê casou quando era moço, e deu-se bem com a mulher, e tem vivido sem sustos; mas eu já cá estão os cincoenta, não sou dos rapazes da moda, e tenho ás vezes umas lembranças que me derrancam o coração.
—Ora, deixe-se d'isso, sôr Andraens! Pelos modos a senhora, com quem vossê vai casar, é menina bem comportadinha, e vossê, quando casar, deixe-se de ir muitas vezes ás assembleas, e pouco de visitas, e de theatros; metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua labutação, e não a deixe pôr pé em ramo verde, sem ir com ella.
—Pois não pozeste!—acudiu José Francisco soltando uma risada aspera de sacões, que valia bem um programma.—Vossê ainda está n'essa?
A minha mulher, quando eu a tiver, é cá para o amanho da minha casa. Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro, não lhe ha-de cançar; mas ir a bailes e a comedias... isso, snr. visconde... olhe cá se me vê algum T na testa! É verdade que a minha futura noiva é toda pronostica e está avezada ao palavriado dos pantomineiros que não tem senão aquillo e a sua miça; mas eu logo que case hei-de pôl-a na lei em que ha-de viver.