A mulher é do seu homem, e casou para tratar-lhe das doenças, e do arranjo da familia. Quem quer andar á tuna nas comedias e nos balancés deixa-se estar solteira; não é assim, amigo visconde?
—Assim é; mas não será bom apertal-a muito, amigo Andraens... Isto de mulheres, olhe que nem o diabo as quiz guardar, e quando ellas entram a desatremar, adeus, minha vida!
—A desatremar!—clamou José Francisco com iracundia.—Então um homem não é senhor de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher com quem reparte do que tem? do seu dinheiro? do que lhe não custou a ella a ganhar? do seu dinheiro?
—Vossê diz bem, sôr José; mas é que ella a isso póde dizer que estava melhor solteira.
—Homem, vossê nem parece visconde n'isso que diz!—atalhou com ironia pungente José Francisco.—Eu vou já embuchal-o com uma pergunta:—Quanto vale a tal madama?
—Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem.
—Por tudo que ella tem não dou eu seiscentos mil réis. A casa é do morgado, e os bens livres, repartidos por seis irmãos, nem p'ra pagarem a minha divida chegam. E quanto acha vossê que eu tenho, ó amigo visconde?
—Vossê, cá segundo os meus calculos, ha-de ter o melhor de cem contos... p'ra cima que não p'ra baixo.
—Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse José Francisco muito á puridade, se não fosse aquella tapona que eu levei na costa d'Africa, podia ter os meus quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil réis a minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas correrem regularmente, cá nos engajados, escuso de bulir no que tenho apurado. Ora ahi tem vossê. Faz favor de me dizer se a rapariga, que não tem nada, casar commigo, não fica a ser rica e respeitada no mundo! Responda a isto, amigo, se é capaz!
—Sôr José Francisco, tornou o visconde com sisuda gravidade, olhe que eu tenho andado muito mundo, e visto muita cousa. A rapariga, se casa comsigo, é por que quer figurar. Vossê já não é muito moço, e não sei como ha-de estar em casa mettido a entreter a mulher. Sabe que mais? se está na teima de a não deixar ter alguma folga, o melhor é deixar-se estar solteiro até lhe apparecer moça mais azada p'ro seu modo de vida. Deixe cá o arranjo ao meu cuidado, que eu conheço muito negociante aqui no Porto que tem raparigaças como castellos, e vossê não tem senão escolher.