—Cale-se lá, homem!—interrompeu com azedume e paixão o de Cozelhas—Eu gosto de Silvina d'uma vez! E, se quer que lhe diga a verdade, já fiz alguma despeza com ella. Vossê inda a não enxergou?
—Ainda não á minha vontade; mas na semana que vem vou dar um baile só para a vêr a preceito; já a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella era bem tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada.
—Isso então!—exclamou o snr. Andraens, com os olhos rutilantes de jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia recuar os refegos das bochechas até ás orelhas, como dobras de cortinas apanhadas.—Bem feita até alli! O pescoço é branco como a cal da parede; os braços parecem de leite, e aquillo hão-de ser macios que nem veludo; os olhos, continuou José Francisco, com precipitada torrente de imagens orientaes, parece que entram no interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como dous grillos; os dentes são da côr d'essa camisa, e tão iguaesinhos que parece mesmo cousa de fazer crescer a agua na bocca; quando ella anda pela casa, aquillo é um gosto vêl-a! parece que está a casa cheia! E ouvil-a fallar?! Vossê não faz uma pequena idéa! Até falla de Sebastopool! (Vê-se que esta feição do talento de D. Silvina foi a que mais deu no gôto do snr. José Francisco Andraens.) Em fim, amigo visconde, mulher como ella não espero topal-a. Tenho-lhe sympathia cá de dentro; sonho com ella todas as noites; dia em que a não veja, ando como a cobra que perdeu a peçonha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu não a vejo, vou zangado p'ra casa, e já me tem acontecido não ceiar! As cartas d'ella tenho-as na cabeça, e já comprei um livro muito grande, chamado... chamado elle... assim uma cousa a modo... de... vossê hade saber? Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!...
—Uma pauta, ha-de ser pauta...
—Qual pauta, nem qual diabo! é um livro, que ensina a escrever com as letras todas... Já me lembra: um breviario.
—Ha-de ser isso, ha-de ser isso...—disse o visconde, que apreciou o ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever com as letras todas—mas, a fallar verdade—continuou ingenuamente o brazileiro—não me ageito com o tal livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago eu na carteira uma carta, respondendo á d'ella de hontem, a vêr se lh'a entrego esta noite. Quer vossê vêr, amigo visconde? Eu p'ra si não tenho aquellas. Ora escute lá; mas o mais acertado é lêrmos primeiro a que ella me escreveu. Vossê vai ficar pasmado; ora ouça.
José Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da alamêda da Lapa, e leu correntemente o seguinte:
«Meu caro amigo.
«Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que eu não estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e ordenou que eu o acompanhasse. Passei uma noite insipida, lembrando-me que podia passal-a no remanso duma dôce paz e contentamento d'alma ao lado do homem cujas tão amantes como paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos d'um delicioso futuro...»
Aqui José Francisco sacudiu na mão o papel, e exclamou radioso: