Ai! se elle a amava!
Este expansivo dialogo fôra anterior quarenta e oito horas áquell'outro que ouvimos entre o brazileiro, e Christovão Pacheco de Valladares.
Quem te ha-de crêr agora, José Francisco Andraens! Que se te dá a ti da barriga, se tu amas tanto a mulher predestinada?! Descança, anjo do amor, no teu céo de duzentos contos, que as filhas dos homens lá irão buscar-te!
XII.
Ai! como elle a amava!
Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella côdea grossa de José Francisco Andraens! Que requebros de namorado, e que furias de cioso! Aquella é verdadeira paixão que ora se refrigera com orvalhos do céo, ora se calcina nas labaredas do inferno. A paixão de José Francisco era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em blandicias de Petrarcha; agora arripia o vêl-a a espirrar coriscos da cratera que lá referve dentro.
Mal Christovão Pacheco sahira, galgando atordoado as escadas quatro a quatro, José Francisco arrancou de si a cataplasma d'um impeto que faria lembrar Catão arrancando o proprio redenho. Saltou para o chão, calçou as mouras escarlates que lhe serviam á farta de tapete, lançou sobre as espaduas um capote de camelão de quatro cabeções, enfiou as mangas do mesmo, e sentou-se á escrivaninha, resfolegando vaporadas pelas ventas, que nem javali monteado por lebreus. A criada entrava n'esta occasião com a terceira camada de linhaça, e fez pé atraz, enfiada de puro horror.
—Que queres tu, moça?,—mugiu José Francisco.
—São as papas...—balbuciou a espavorida criada.