—Não quero mais papas. Vai chamar o meu compadre Amaro, e que venha já de marcha para ir com uma carta a Margaride.
O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta, com a authenticidade do de todas as outras, não pude havel-o, apesar de suadas canceiras que este paiz tão sovinamente remunera aos indefessos obreiros das suas glorias. O que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a Pedro de Mello, pai de D. Silvina. José Francisco lembrava ao fidalgo a sua divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta réis que lhe emprestára sobre hypotheca da quinta da Lixa. Dizia mais que não podia continuar a remetter as mezadas para os academicos da universidade. Instava pelo prompto pagamento do seu credito, ou trespasse da quinta hypothecada. Ameaçava-o com o poder judiciario, e terminava com estas quatro linhas, unicas authenticas:
Pr'ámor da sua filha é que é tudo isto. Se ella andasse direita comigo outro gallo lh'avia de cantar. Assim o quiz, assim o tenha. Comigo não se manga, e está arrumada a pendencia.
Ai! se elle a amava!
A carta partiu, e José Francisco, aplacado o maior afôgo da convulsão, chamou a moça, pediu uma tigela de tapioca, e comeu á tripa fôrra.
Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperava o primo no hotel, curioso de saber o fim a que o chamára o brazileiro. Christovão contou lealmente o acontecido, já barafustando furioso, já enternecendo-se a lagrimas. O de Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do primo lhe embargavam as guinadas de riso. Começava a desconfiar o de Santa Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a postura, fallou assim:
«Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um José Francisco na conquista d'uma mulher! Um neto do governador de Cochim a disputar meças de merecimento com um chatim de negros! um moço no mais florido dos annos, gentil de sua pessoa, sacrificado á mazorral caricatura, que ahi está symbolisando uma fortuna tão besta quanto assignalada das vergoadas do látego com que o infame de Deus e dos homens fazia espirrar sangue das costas dos escravos!... Primo Christovão, torne sobre si, peje-se d'essas lagrimas que ahi derramou, e que eu escarneci para não tomar ignominioso quinhão da sua dôr aviltante para evos e para vindouros! Que mulher é essa, a neta do sargento-mór d'Amarante, que anda ahi a chafurdar nos chiqueiros da sua cubiça um appellido que usurpou? Mello! Quem lhe deu a ella Mello?! Seu visavô era Antonio Gonçalves; seu avô era Francisco Antunes Gonçalves; quem enxertou no pai esse pomposo appellido? Silvina Antunes é como ella se chama, essa farrapona que mendiga para uma carruagem e seis vestidos o preço dos ultimos doze pretos que José Andraens mandou acorrentados ao mercado. Primo Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D. Mafalda Pacheco e Alvim, açafata illustre da côrte do snr. D. Pedro 2.º, descendente dos Alvins de Braga, onde casou o condestavel D. Nuno Alvares Pereira! primo, lembre-se de quem é, e esmague debaixo das solas das suas botas o coração, se sente que uma gotta de seu nobre sangue se ha degenerado no vilipendioso affecto que prodigalisou á esposa promettida de José Francisco!»
Este aranzel fez bem ao coração do morgado. Entrou em si, coçou-se com ambas as mãos algumas vezes, estirou os braços convulsivos com os punhos cerrados, e exclamou de golpe:
—Que a leve o diabo!
Egas estreitou o primo ao coração com vehemencia, levantou-o tres vezes em peso, e bradou por fim: