—Dizes bem, prima—acudiu Francisca, tambem colerica por contagio—Deixemos o villão.
Pires, quando lhe voltaram as costas, deu dous passos em seguimento d'ellas, e tomou-lhes o passo.
—Continua a petulancia?—disse Silvina irada—olhe que eu trago um criado!
—Com libré emprestada, minhas senhoras?—disse o imprudente fidalgo da Maya, que trazia os ouvidos cheios das diffamações geanologicas d'Egas de Encerra-bodes.—Snr.ª D. Silvina, eu fui quem lhe apresentou a nobre alma de Jorge Coelho, que v. exc.ª quiz estragar. Empeçonhou-lh'a, mas não ha-de enlameal-a. Quem vinga Jorge sou eu, Leonardo Pires de Albuquerque. Saiba v. exc.ª que José Francisco Andraens é meu. Aquelle problema de carne hei-de desatal-o eu com o escarneo, e v. exc.ª ha-de ficar submersa nas avalanchas d'aquella montanha de cebo. Agora nós, snr.ª D. Francisca da Cunha. V. exc.ª, que só sabe lêr as cartas do linheiro das Hortas, e que tem tido o indiscreto recreio de me andar ridicularisando no boudoir das suas dignas amigas, ou se encastella com o linheiro das Hortas lá no seu burgo de Traz-os-Montes, ou tem de esconder-se nas rimas de estopa em que seu futuro esposo lê de pernas ao ar as suas epistolas. Sem mais.
Pires, vibrando no ar estalinhos com o chicote, entalou a luneta no olho esquerdo, e foi expandir o jubilo em folgada palestra com os morgados, que o espreitavam.
Silvina, quando entrou n'uma casa nobre de Traz da Sé, soffreu um insulto nervoso que desabafou em gritos. Queria Francisca da Cunha consolal-a; mas estava esperando de instante a instante ser assaltada tambem do mesmo insulto. As senhoras da casa á competencia desfaziam-se em desvelos; mas Silvina respondia apenas: «hei-de vingar-me!»
Desiderio Erasmo, como sabem, escreveu a «Apologia da tontice.» Eu não me afouto a encarecer a de Leonardo Pires; porém, assim como os regedores das republicas nobilitam com mercês e titulos não só a estupidez—isso é o menos—mas a infamia soberba d'uma opulencia cevada e medrada em cruezas e deshumanidades, que muito se aventurarmos um voto de louvor a alguns selvagens da civilisação, doudos providenciaes que atiram a vaza do insulto a caras já de si tão sujas, que não ha medo de enferretal-as?
Alguns homens, como Pires, seriam muito proveitosos n'uma sociedade como esta. Houve-os sempre com differentes nomes e appellidos. Na antiguidade, chamaram-se Aristophanes, Diogenes, Marcial e Plauto; na meia idade eram os prophetas, os padres da igreja, e, com menos caução de suas prerogativas censorias, os histriões palacianos. Na correnteza d'esta geração por excellencia policiada, mas de todas a mais gafa do que ahi se chama «ridiculo» e do que mais é para chamar-se lastima, ha muito quem tire a campo de zombaria os «ridiculos» do mundo; mas ninguem se vê copiado n'elles, e os copistas de modo o fazem que fique salvo o orgulho de cada azêmola que fita a orelha ao ornejar da copia, mas não responde. A isto é o que ahi dizem «guardar as conveniencias»: á mesma cousa, chamavam d'antes «guardar as costas.»
Seja o que fôr, a satyra assim não vinga fructo de servir á geração que está nem á porvindoura.
Satyra prestadia, se alguma houve, é a de Leonardo Pires. Eis ahi um doudo, que tolos e sisudos lançarão de suas casas com horror; e todavia qual de nós não sente um Pires, na consciencia, a travar-se de razões e murros com a nossa soberba? Seis Leonardos activos no Porto purificavam o ar pestilencial que para alli veiu das terras de Santa Cruz. Na idade media, os tabardilhos, as pestes fulminantes; no seculo 16.º o verme roedor que desmedula os ossos através de vinte gerações que hão-de lembrar-se sempre de Colombo pelo mimo; no seculo dezenove, mais que nunca, a peste do Brazil, de que adoecem espiritos empinados em seu orgulho como o de Silvina e Francisca da Cunha.