—Agoniso, minha senhora, agoniso.
—Ai! que funebre vem!—disse Silvina—póde-se agonisar com esse rosto tão de vida, e rubicundo?
—Póde-se padecer muito, minha senhora, com o rosto rubicundo—replicou Pires—Eu sei de creaturas, metaphoricamente chamadas humanas que soffrem muito, sem impedimento das massas de toucinho que as envolvem. Darei a v. exc.ª um exemplo. Conheço uma metaphora chamada José Francisco Andraens... (Silvina córou e franziu a testa) monstro cevado em sangue humano, que elle distilla em banha e asneiras, o qual monstro,—ninguem o ha-de crêr, minha senhora—neutralisa o combustivel da paixão com o refrigerante das cataplasmas de linhaça. Ahi tem v. exc.ª um exemplo que justifica de sobra a minha agonia.
—Vamos, prima, que são horas—disse Francisca da Cunha, condoida do enleio desacostumado de Silvina.
—Pois sim, vamos—disse esta, corrida de modo, que incutiria compaixão em homem que não fosse Pires.
—Dão-me as suas ordens, minhas senhoras?—disse elle, ladeando—Ah!—continuou Pires de sobresalto—esquecia-me dizer á snr.ª D. Silvina que o nosso Jorge vem ahi...
—Ah! vem?—disse machinalmente Silvina.
—Vem, sim, minha senhora, a requerimento meu, por que lhe conheço grande curiosidade de naturalista, e desejo mostrar-lhe José Francisco Andraens, a hyperbole de enxundia, monstro, de quem eu tive a honra de fallar a vv. exc.as, e que até ouso recommendar-lhes, para que vv. exc.as admirem não só o bruto, mas o effeito prodigioso da linhaça.
O enleio de Silvina redundou em colera.
—O senhor, disse ella, está-me insultando por que eu e minha prima, confiadas na cortezania da sociedade em que vivemos, sahimos sem um homem, cujo desforço nos desafronte com honra.