Padre João dormiu nos coxins macios da sua limpa consciencia; Jorge, apenas o tio se fechou com o breviario, e adormeceu ao quarto psalmo penitenciario (um egresso repleto de gallinha cozida a resar um psalmo penitenciario! parece um paradoxo! Tomára eu saber se David compoz aquellas lastimas antes que as caricias de Bethsabé o enfastiassem!)... Estas incisões intermittentes hão-de perdoar-m'as os leitores que souberem o que é escrever um romance n'um carcere, onde já não ha carrasco, mas existe o espirito do carrasco identificado a uma cousa que nós cá os assassinos e os salteadores denominamos as authoridades, que medram no cêvo do erario, uns chamando-se procuradores do rei, outros carcereiros, outros chaveiros, outros guardas, a mesma familia representando o rei de theor e modo que fazem odiosa a palavra do symbolo que lhes legitíma a crueza, a barbaridade que lhes tem ladrilhado o coração, e muitas vezes a infamia que se abona com a justiça, essa divina irmã dos anjos, que os cafres trazem tão nusinha e pustolosa por sobre os esterquilinios d'elles.

Agora é que me eu perdi de todo... Perdido devéras andava aquelle pobre Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto o padre dormia o somno do justo. Chegou á celebrada ponte, curvou-se no parapeito, e teve tentação de precipitar-se. Foi instantaneo o accesso de loucura. Jorge viu a imagem de sua mãi no scintillante reverbero da lua que se espelhava no Tamega, Levantou os olhos para o céo, e disse:

«Ó Providencia Divina! leva esta dôr ao coração de minha mãi, para que ella, a santa, peça por mim!»

Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava apertada nos rochedos a torrente, que scintillava em escamas de prata. De longe vinha a toada soidosa d'uma flauta que tocava a chacara popular dos «Dous renegados.» Jorge amava desde os doze annos os versos maviosos e truculentos d'aquella canção de amor que chora como anjo e obsecra como demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou chorando, já não em ancias, mas suavissimamente, como se o espirito de sua mãi lhe alcançasse do céo a mercê das lagrimas que desopprimem.

Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das mulheres que padre João vira com santa indignação, a tripudiarem sobre as ossadas dos monges na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola. Jorge deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata, e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem agradecia.

—Vá-se agora, embora, mulher—disse Jorge, sem enfado, mas desejoso da solidão que tão suave lhe estava sendo.

—O senhor dá-me este dinheiro todo?!—disse a mulher, que os homens chamam perdida, e que não o estava, nem o podia estar aos olhos do seu Creador.

—Dou, sim.

—Bem haja, meu senhor!—tornou ella, com lagrimas na voz—já tenho com que ir para a minha familia. Eu sou uma desgraçada, que vim do Algarve, ha tres annos, fugida a meus paes, com um rapaz meu parente, para casarmos onde podesse ser. Elle requereu ao commandante; mas não teve licença para casar commigo; eu depois fui lançar-me aos pés da senhora do commandante, e consegui licença. Quando estavamos muito contentes, mandei buscar a minha certidão e mais papeis á terra; mas disseram-me de lá que nós eramos primos, e não podiamos casar sem dispensa. Não tinhamos dinheiro para ella, e fomos vivendo até vêr se Deus dava remedio. N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e deixou-me a morrer á fome. Agora com este dinheirinho vou já amanhã para o Porto, e de lá vou n'um hiate para Tavira, e vou botar-me de joelhos aos pés de minha mãi.

—Pois vá, não mude de resolução, e faça por ser boa filha—disse Jorge com maviosa caridade.