—O senhor será um anjo do céo?—disse a feliz creatura lavada em lagrimas.

—Não sou anjo do céo, não... Vá com Deus.

A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo retabulo de granito em que na fachada do templo de S. Gonçalo sobresahem os grosseiros relevos de uma Senhora com Jesus morto no regaço. Jorge viu, ao clarão sereno da lampada que pende sobre a imagem, a mulher ajoelhada. Banhou-se-lhe o espirito de um contentamento, que não poderia existir na terra, se acima d'este tremedal, não velasse um Deus as acções do homem que póde erguer-se do seu rasto até hombrear com os anjos.

Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a imagem da mulher pura, a mãi, a santa, onde chegára talvez a revelação das penas do filho. Silvina, n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a poesia da paixão pôde disputar o espirito do mancebo á poesia da caridade.

Entretanto, o varão justo, o padre João Coelho, acordava com a digestão consummada, voltou-se para o outro lado, e reatou a nota quebrada de um beatifico ronco.

XIV.

As prelecções de historia antiga que padre João fizera, desde o Porto até casa, não tocaram o juizo nem o coração de Jorge; mas as singelas palavras da indulgente mãi, e as caricias dos irmãos, acalmaram algum tanto a febril paixão do academico. D. Antonia, de proposito, passou com o filho no adro da igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava dentro um baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no arco. A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da capella-mór, e chamou para junto de si o filho.

—Senta-te aqui, Jorge;—disse ella—quero fallar com o meu filho ao pé da sepultura de seu pai. Não a esqueceste ainda, pois não?

Jorge desceu a vista sobre uma das lages que formavam o estreito pavimento da capella-mór. D. Antonia continuou: