—Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a vehemencia da sua fé e da sua razão.—Vences, porque Deus não dá ás más paixões o poder de matarem uma creatura, que póde desafogal-as nos braços de sua mãi.—E erguendo as mãos para o altar, disse com a voz convulsiva—Graças, meu Redemptor!

Anoitecera. Padre João, que era o vigario da freguezia, andava discretamente passeando no adro, e entretendo os sobrinhos para não interromperem a pratica, cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia ergueu-se, tomou a mão do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam brincando as tres irmãs de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove annos, e o irmão mais novo que nascera depois da morte de seu pai. Saltaram os mais novos aos abraços á mãi, e as duas meninas ao pescoço de Jorge, com grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do adro, e tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que á fina força queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas brancas. D. Antonia contemplava o grupo com o semblante banhado de alegria. O egresso, debruçado sobre a parede baixa que contornava o adro, fallava com o mordomo da festa de S. Sebastião ácerca do numero de padres e do prégador que devia chamar. Os meninos mais novos já tinham largado a mãi para apedrejarem as andorinhas que chilreavam em redor do campanario, cuja sineta unica era movida debaixo por um cordel, que os pequenos a muito custo respeitavam por alli estar o tio padre.

Resolvido o negocio da festividade do orago, padre João tirou pela corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos ergueram as mãos, e resaram em voz alta. «Ora, Deus nos dê boas noites.»—Disse o padre. Rodearam-no os meninos a beijar-lhe a mão, e Jorge tambem depois que sua mãi lhe deu a fronte.

Terminado este lance, cuja poesia santa não ha pedil-a a corações que deram com ella no pégo da lama brilhante onde dizem que a poesia está, Jorge Coelho fitou os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos seus dias passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que lhe estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as vibrações do sino que repicava no baptisado de seus irmãosinhos, e dobrára na morte de seu pai, reconcentrou-se; sentiu uma secreta amargura que não era angustia de saudade, nem pavor de previsões afflictivas... Que era, pois, esse vulto lá muito ao longe, ao pé d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da montanha? Era a imagem de Silvina ainda perto do céo, porque de lá vinha cahindo, bella como os anjos que lá nasceram; e, rebeldes á piedade, á virtude, á suprema graça, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda disputando ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de festa e risos, reptando-o á lucta com um sorriso affrontoso, e esgares de escarneo ao protesto santo jurado sobre a sepultura d'um pai, e assellado com lagrimas de mulher sem macula. Era a visão maldita, a fada inexoravel dos que vem a esta hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo sacrifica e cospe.

Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe:

«Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros de mais saborosa peçonha!? Vê se te sorriem uns labios com mais dôces favos de phrases que assignalaram a mais bella hora da tua vida!»

Meu pobre Jorge Coelho! Tua mãi não te salva d'esse captiveiro. Teu pai, esse resgatava-te, se te désse um lugar no seu leito!... É intransitivo o calix!

XV.

A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que Silvina ia todos os dias á Foz de carroção, e almoçava bifes e fiambre no hotel inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de anquinhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na agua, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos tritões de baêta azul que a rodeavam, e sahindo dos braços de Neptuno mui peneirada aos saltinhos pela praia, que eram umas delicias vêl-a. Dizia mais, que Francisca da Cunha, ao sahir do banho, era uma cousa desazada como perua que saltasse de um tanque a escorrer agua. Este era sempre o estilo do fidalgo da Maya. Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia todos os dias a Silvina o sacrificio de se lavar no oceano, dando grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista.