Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade lh'o vasava no coração. O innocente esperava que Leonardo lhe enviasse, senão uma carta, ao menos palavras consolativas de Silvina, incentivos apaixonados á esperança, lagrimas de saudade e protestos de firmeza eterna.
Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de encontrar-se com Silvina na calçada dos Clerigos, na loja do snr. Antonio das Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o motivo da sua repentina partida para a provincia, com o que a boa da menina se rira grandemente, dizendo que seria muito de receiar que o tio padre trouxesse uma palmatoria debaixo da sotaina. A isto respondera Leonardo—e não duvidamos acredital-o—que Jorge devéras merecia meia duzia de palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um anjo que fizera presente das suas azas á gravata do morgado de Santa Eufemia. E como quer que Silvina redarguisse com voltar-lhe as costas, Leonardo fôra fallar a Francisca da Cunha que estava á porta do snr. Antonio das Alminhas, conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro lhe estava dizendo que o dia estava muito bonito.
Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e dizendo pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da vida que em seu começo tropeça na desgraça; rebates de saudade d'um tempo que mais não voltaria; os encantos perdidos do céo, das arvores e das montanhas que elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o coração desaffeito das caricias maternaes e já insensivel ao sabor d'ellas; longos dias, sem um sorriso, encadeados a noites desveladas sobre livros em que elle, como Hamlet, não via senão palavras, palavras, palavras.
Na terceira carta dizia Jorge ao seu amigo que talvez não fosse a Coimbra, porque a saude lhe minguava com a vontade, e a perspectiva da morte era a visão mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos seus bosques, onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua irmã Angela.
D. Antonia não entendia o filho. Via-o triste; mas triste o vira sempre desde criança. Espreitava-o de noite no seu quarto, e achava-o sempre com os cotovêlos na mesa de estudo, o rosto entre as mãos, e um livro aberto. Se o interrogava ácerca da sua saude, Jorge respondia sempre que não soffria senão o mal-estar da sua doentia imaginação. A mãi, fiada em suas orações, esperava o melhor, e agradecia já a Deus a cura completa de seu filho.
Padre João, porém, via mais de perto o fio ás cousas.
—O rapaz come muito pouco!...—dizia o sagacissimo egresso á cunhada—Não nos fiemos n'aquelle exterior pacifico, mana. Alli ha amargura secreta enfronhada n'uns ares de serenidade, que não é d'aquelles annos. Jorge está magro, macilento, e não dorme. Debaixo da janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. Já pude concertar uns pedacinhos, e lá encontrei o nome da fada má, que nos ha-de perder Jorge.
—Perder!... não diga tal, mano João!—exclamou a viuva, estorcendo os dedos, e já com as lagrimas, a fio.
—Perder, sim!... Mana Antonia, eu já tive vinte annos, e entrei no mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a. Quer resgatar o seu filho das ciladas da sereia?... Olhe que só Ulysses venceu uma vez sereias. Que me conste; desde Ulysses até nós, as vencedoras são ellas sempre, quando as victimas as não podem examinar de perto, e vêr que ellas escondem na agua a metade monstruosa do corpo. (A erudição mythologica do padre nem D. Antonia poupava!)
—Então que conselho me dá, mano?—atalhou a senhora.