—Quando Jorge der signaes de doença grave, quando uma ponta de febre lhe accender as faces, mande-o para o Porto.

—Para o Porto?! Que desproposito é esse!?

—Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na conta da sua indigna paixão. Deixe-o ir ouvir o descredito da tal mulher. Ha mulheres como a lança de Pélias: curam a ferida que fazem. Eu já me arrependi de obedecer aos rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente. Logo que eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle á miseria da sua illusão. A esta hora estava elle talvez desenganado. Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante Ferreira, casado com a sua amiga do convento. Diz-me que Silvina arranjara a final um brazileiro millionario, tão monstruoso em corpo como ella é monstruosa na alma. Se Jorge estivesse a esta hora no Porto, cercado de homens que fazem zombaria das affeições serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, não me acredita; e, se me acreditar, não temos balsamo que lhe feche a chaga; verá que elle a rasga mais com as suas proprias unhas, Mana Antonia, o meu parecer é este. Não me argumente, que não sabe, nem póde. Se a sua vontade fôr outra, lavo d'ahi as minhas mãos...

D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de sobresalto. Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal para entremetter n'outros papeis a folha em que escrevia.

—Escondes de mim o que escreves, filho?—disse D. Antonia, com magoada brandura.

—Não, minha mãi, não escondo...

—Pois eu não vi?!—tornou ella, sorrindo tristemente.

—São cartas para os meus condiscipulos.

—Deixas vêr-m'as, Jorge? Que poderás tu dizer aos teus amigos, que não dissesses a tua mãi?! Fallas das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a mim.

—Eu não fallo de amarguras, minha mãi—disse Jorge, erguendo-se, para afastar a mãi da banca.—Communico a um amigo os meus estudos, as minhas impressões de leitura, cousas que não podem recrear uma senhora...