—Assim será, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem mentirás, pois não?
Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito, que valia tanto como a supplica de perdão.
N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima, que vinha visitar o academico. Jorge foi logo á sala, a mãi acompanhou-o até fóra do quarto; e retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu entretido. Foi fácil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No alto da folha, leu estas palavras: «AO ANOITECER DA VIDA.» Depois seguia assim:
«Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem entre uma saudade e uma esperança. Saudade! de que hei-de eu tel-a?! E que posso esperar? Quem me dera já as trevas! Esta luz, que me alumia, é ainda a d'aquelle clarão infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de um inimigo. Não me has-de tu matar, paixão! Morro porque não podia viver. Se não fosse aquella mulher, era outra. Eu vejo e palpo a morte ha muitos annos. A fugir da morte, refugiei-me no coração de Silvina. Porque me disse ella: «no mundo deve existir a imagem da mulher digna de senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria com respeito e ternura de filha?» E como Deus pôde crear no coração humano para zombaria pensamentos assim! Á mulher infame devia morrer a memoria das palavras com que se exprime a virtude... Sinto-me tranquillo... A compensação dos affrontados é esta. No mal e no bem te reconheço, Providencia Divina!... Mas o mal para que é? Se é necessaria na ordem do mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgraça, fôra digno da perfeição divina deixar ás almas inculpadas o galardão de não sentirem a absurda justiça do Creador.
«Que és tu, bem? que és tu, virtude?... que és tu...»
Aqui fôra interrompido Jorge pela subita entrada da mãi.
D. Antonia quasi não entendera o escripto; mas algumas palavras, as do titulo só, bastaram a compenetral-a de consternação e terror. Ouviu os passos de padre João, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso leu, e respondeu risonho:
—Não tem de que se lastimar por em quanto, minha irmã. Isto é um accesso de febre; mas não me assusta; o que eu receio é a outra que não interroga a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o seio, e esperar resignadamente a morte. Vá á sala, que o hospede quer comprimental-a.
D. Antonia sahiu, e padre João escreveu o seguinte no papel que lêra:
«O pucaro pergunta ao obreiro porque o fez quebradiço. O oleiro responde: porque eras barro antes de seres pucaro.»