«Virtude é o diamante em que se pulverisam os raios da desgraça. Aquelle é virtuoso que olha em torno de si, e vê prostradas as calamidades.»

«O reino de Deus não está em palavras sonoras; mas em virtudes. (S. Paulo—aos impacientes de Corintho).»

«Coração apoucado, sossobra, se não podes com a tua miseria; mas não abandones a tua memoria a uma piedade vã, que é quasi uma zombaria.»

XVI.

Traslado fiel de uma carta de Leonardo Pires a Jorge Coelho:

«São 6 horas da manhã. Venho do baile do visconde dos Lagares. Tenho o coração a trasbordar de amargura! Deixal-o trasbordar, que é uma gotta de absintho n'um oceano de champagne. Um bago de uva matou Anacreonte. Eu sinto-me triplicar de existencia na uva. Evohé! Como a vida é linda! que vergeis de flôres recendem á tona d'este lamaçal! Vem cá, Fortuna! Schakspeare chamou-te prostituta. Linda, vem cá, que eu bem te vi no baile, como o poeta inglez te via nos paços e nas tavernas! Senta-te aqui nos meus joelhos, impudica! Solta d'essa larynge recozida de alcool um dithyrambo! Ri-te commigo, e não me venhas dizer que és filha da Providencia, infame blasphema!...

Cançou-me o folego, Jorge! O meu vinho nunca foi para grandes apostrophes. O descriptivo é o meu forte.

Fui ao baile. Pude lograr a causa da moral publica. Deves presumir que estou desacreditado no Porto, e em vesperas de um duello. Sou o varão justo a braços com a adversidade: vir fortis cum mala fortuna compositus—a maravilha que punha Seneca em extasis! O champagne do visconde é litterario como as aguas da Aganippe. Que abundancia de pegasos eu vi beber na sala da ceia, e apparecerem Homeros na sala do baile!

Pedi a quatro conhecidos que me arranjassem convite. Era impossivel. O visconde respondia que eu era um bolas, que descompozera no largo da Batalha uma menina, noiva de um seu amigo. Eis que encontro o João da Thereza da Cancella! Este João é meu caseiro ha cincoenta annos. Vê-me, corre a abraçar-me, e exclama: «Fidalgo, o meu Francisco chegou!»—«Quem é o teu Francisco, amigo João?»—«O meu Francisco—tornou elle—que estava no Maranhão! pois não sabe?»—«Não sabia... Vem rico?»—«Rico como um burro!»—«Está bom; estimo; é barão de...?»—«Não, senhor; barão ainda não é; mas está aquartelado em casa do snr. visconde dos Lagares.»—«Sim?!»—«É como digo, fidalgo, e, pelos modos casa-lhe com a filha; é arranjo tratado já lá do Brazil.»—«Fazes-me um favor, João?»—«É pedir por bocca.»—«Teu filho será capaz de me arranjar que eu seja convidado para um baile que vai dar o visconde amanhã?»—«Que remedio tem elle, senão arranjar?! Quem foi que lhe pagou a passagem para o Rio senão o paisinho do fidalgo?!»—«Vai depressa, e volta aqui com a resposta.»