—Vi-te n'aquelle momento, meu caro Jorge. Vi a tua candida alma, n'esse ermo, a penar, em quanto a vil, que te mentira o apunhalara, se andava alli glorificando de que a indigitassem como futura quinhoeira dos duzentos contos do negreiro. Fervia-me o sangue em borbotões de raiva. Jurei tirar alli uma vingança em teu nome, a vêr se me assim despenava da culpa de te apresentar, de te immolar aos rasos instinctos d'aquella mulher. Busquei ensejo de fallar-lhe; mas ella evadia-se, não largando nunca o braço de um ou outro homem. O millionario, filho do João da Thereza, levou-me á casa da ceia, e serviu-me tres copos de um vinho que tinha um nome barbaro. Abrazou-me as arterias; mas a minha raiva medrava nas chammas como a salamandra. Tornei ás salas, encontrei Francisca da Cunha pelo braço do linheiro das Hortas; parei diante d'elles, e disse, com a solemnidade do estilo:—Boccacio e Fiammentta! Bettina e Goethe! Fornarina e Rafael de Urbino!

O linheiro, voltou-se para Francisca e murmurou:—Não conheço este sujeito.

Eu continuei: Beatriz e Bernardim!

—O senhor está enganado comnosco—disse o linheiro na sua boa fé de linheiro. Francisca, tirou-lhe pelo braço com força, e afastaram-se. Não sei o que lhe ella segredou. O homem, pouco depois sahiu-me de cara, e disse-me:

—V. s.ª parece que, ha bocado, me quiz insultar.

—Eu não o quiz insultar ha bocado, senhor... como é a sua graça?

—Eu chamo-me Antonio José Guimarães.

—Pois senhor Antonio José Guimarães, como passou?

O linheiro açafroou-se, mediu-me tres vezes perpendicularmente, e disse:

—O senhor ha-de dar-me uma satisfação.