—N'esse caso, satisfaça-se, e, quando estiver satisfeito, avise-me, snr. Antonio.
—Na rua nos encontraremos.
—Pois sim, repliquei eu, na rua nos encontraremos. O snr. Antonio quer duello a todo o trance e sem misericordia? Eu não me bato com armas brancas nem pretas. O snr. Antonio, como tem a materia prima de casa, leve uma corda, que o hei-de enforcar.
O linheiro ficou chumbado ao tapete, e suava como uma abobora porqueira em manhã de orvalho.
Tocou á ceia. Entrei na sala. O champagne estalava. Os crystaes retiniam. Os talheres tilintavam. Eu tinha no craneo a musica das espheras. José Francisco Andraens ia atamancando um empadão de pombos, cujos arcabouços lhe pendiam das belfas em fragmentos. Silvina defrontava com elle, e comia a duodecima Sandwich. Estavam tres perús, ou seis, ou não sei quantos perús intactos na mesa. Fui collocar-me atraz de José Francisco Andraens, e chamei um servo agaloado de prata. O snr. commendador Andraens—disse-lhe eu a meia voz—quer que vossê leve um d'estes perús de mando d'elle áquella senhora que tem uma grinalda de flôres brancas. Disse e fui collocar-me a pouca distancia de Silvina.
Chegou o criado com a travessa, e disse:—Minha senhora, o snr. commendador Andraens manda isto a v. exc.ª
—Isto a mim!—tartamudeou ella entre admirada e vexada.
—Sim, minha senhora, a v. exc.ª—teimou o criado.
Silvina pregou os olhos abrasoados em José Francisco, que lhe abria um sorriso apaixonado por entre o costado d'um pombo. Ao sorriso respondeu ella com um tregeito de colera. Cheguei ao ouvido de Silvina, e segredei-lhe:
«Minha senhora, José Francisco envia-lhe um suspiro d'alma; e como a alma de José Francisco é uma ucharia, os suspiros de José Francisco são perús.»