—Mas o cirurgião não receia, nem Jorge se queixa...—acudiu D. Antonia, temerosa da separação.

—Deixe fallar o cirurgião, senhora. Seu filho morre sem se queixar.

—Não me diga isso!...—exclamou a mãi consternada.—Pois as suas palavras tão persuasivas, mano, e a religião não hão-de poder nada?

—A religião póde muito: se elle fizer uma confissão contricta, e morrer com sincera dôr dos seus peccados, a religião encaminha-o para Deus; mas o que nós queremos é que elle viva. Que me responde a isto, mana Antonia?

—Eu antes o queria com Deus, que perdido no mundo—disse ella suffocada pelos gemidos.

—Respondeu acertadamente; mas a supposição de que Jorge se perde no mundo, acho-a exagerada. Deixe-o ir onde elle se envergonhe de padecer, que eu lh'o dou por salvo. Torno a repetir-lhe, mana, que eu fui homem antes de ser frade, e a senhora foi sempre o que é—uma alma cheia de innocencia, de bondade, e de ignorancia.

—Pois bem, meu amigo, faça o que entender, mas salvem-me o meu filho.

—Aceito o encargo com uma condição: a mana não chora mais uma só lagrima na presença de seu filho; finge acreditar que elle precisa de banhos do mar; exige que vá já para o Porto, e de lá para Coimbra, se fôr vontade d'elle ir a Coimbra este anno. Conforma-se com isto?

—Com tudo que de mim quizerem—murmurou ella enxugando as lagrimas.

—Agora cuide da bagagem de Jorge, que eu vou fallar-lhe.