Jorge Coelho estava sentado na cama, lendo a Nova Heloisa de J. J. Rousseau. O egresso foi de mansinho ao pé do leito, tirou pausadamente os oculos d'um enorme estojo escarlate, montou-os na ponta do nariz, abriu e arredondou os beiços, pendido o queixo, e examinando o livro, disse:

—Era um grande homem esse Saint-Preux, ó Jorge!...

—Pois o tio conhece Saint-Preux?!

—Relacionei-me com esse cavalheiro e com outros da sua estofa ha bons quarenta annos. Nunca t'o apresentei, quando praticavamos litteratura, por que sempre entendi que o ias encontrar a Coimbra, de parçaria com os muitos filhos que elle gerou para amparo de muitas Heloisas novissimas, de que está inçado o mundo, graças ás novellas, e ao descredito a que baixou a roca e o fuso. Que carta lés?

O egresso levantou o nariz com os oculos á linha horisontal dos olhos, e leu algumas linhas da pagina.

—Ah!—continuou elle—trata do suicidio... Está mui atiladamente debatida a questão por uma e outra parte. O Rousseau era mestre em paradoxos; e sabia bastante de musica; mas os paradoxos dava-os de mimo á humanidade, e para elle guardava a vida com todas as suas paixões villãs, mal resguardadas por uma côdea de soberba e orgulho. Ensinava o mundo a educar os filhos, e mandava os d'elle para a roda. Atassalhava a impudicicia do seu confrade Voltaire, e escrevia as suas Confissões, com esqualido recheio de desvergonhamentos, para prova de que até o impudor tem a sua soberba. E depois, meu sobrinho, o philosopho, a luminaria do seculo, vendo que a ulcera, aberta no coração da sociedade pelas más doutrinas, ia lavrando, defendeu de concerto com os seus tresvalios, uma these apologetica da ignorancia... Vou-me alongando, e já receio de ter dito de mais. Isto são reminiscencias das minhas leituras de ha quarenta annos. Quando orçares pelos sessenta, Jorge, has-de abrir a tua Nova Heloisa n'essa pagina, e has-de rir da impressão, que te magoava, quando a lêste, aos vinte annos.

—Não me sinto magoado por impressão alguma, meu tio—disse Jorge, sorrindo, e depondo o livro.

—Não mintas, meu sobrinho—tornou o padre com branda severidade—Faz quanto em ti couber por salvar dos teus temporaes desfeitos do coração, o melhor thesouro d'elle, a verdade, filho. Sofres, e soffres muito, Jorge. Pensas em morrer, e dás de bom grado a tua vida a Deus, se é que a Divina Providencia transluz nas tuas imaginações negras. Não te culpo, rapaz de vinte annos. O mesmo seria culpar-te e reprehender o naufragado que não soube salvar-se. Nem de fraco te accuso. Se eu quizer que uma tenra vergontea, dobrada pelas minhas mãos, se levante commigo, não hei-de molestar-me se me chamarem insensato. No mais verde dos annos, não responde o mancebo de suas fraquezas: a sociedade que responda por elle, e o temperamento tambem. Isto do temperamento, digo-to aqui muito á puridade, que nós cá, os theologos, não queremos ceder nada aos temperamentos. Ora vamos, Jorge, a pé d'essa cama!

—A pé!—disse Jorge—e poderei eu?!

—Pódes porque queres. Hoje e ámanhã de convalescença; depois de ámanhã para banhos do mar.