—De que me servem banhos de mar, meu tio?
—A resposta é do fôro da medicina. Vaes para o Porto. Hospedas-te em casa de D. Marianna Ferreira, a amiga da creação de tua mãi. Vaes do Porto á Foz tomar o teu banho. Se, no fim do mez, quizeres ir frequentar o primeiro anno juridico, vai; se não quizeres, fica o inverno no Porto, e vem para casa em Maio, caso tenhas saudades nossas e da primavera dos teus arvoredos.
—Peço licença—disse Jorge com amargura sincera—para contrariar a vontade de meu tio.
—Teu tio não concede a licença pedida.
O moço fitou os olhos nas mãos cruzadas sobre o seio, e não respondeu. O egresso lançou-lhe sobre o leito o fato, e sahiu, dizendo:
—Vou mandar pôr o teu talher na mesa.
Jorge disse entre si:—Morrer aqui ou lá... que importa?
Na passagem do seu quarto para a casa de jantar, Jorge recebeu de um criado duas cartas. Uma era de Leonardo Pires; o sobrescripto da outra fez-lhe uma convulsão: era de Silvina. Abriu, e leu o seguinte:
«Não sei que mal fiz a v. exc.ª para merecer-lhe uma vingança tão baixa! Collocou ao meu lado um insultador petulante que me vexa em toda a parte. Que fiz eu ao snr. Jorge Coelho?
«Aceitei os seus galanteios com amor, e aceitei o seu abandono com paciencia. Que queria que eu fizesse para não ser insultada pelo seu amigo? Diga-me se é necessario pedir-lhe perdão de ter sido abandonada. Não hesitarei em fazel-o com tanto que v. exc.ª me garanta a certeza de que não serei injuriada nas praças e nos bailes. De v. exc.ª—eu muito respeitadora, Silvina de Mello.»