Eram imperiosas as palavras do padre: D. Antonia sentou-se. Jorge desceu ao jardim, e foi sentar-se n'um banco de cortiça encostado a um maciço. Abriu a carta de Pires, que resava assim:
«A Providencia não é uma mentira. José Francisco Andraens apanhou uma indigestão de pombos, salame e salmão no baile do visconde, e está em risco de rebentar. Eu estou de atalaia a vêr quantos Jonas sahem d'aquelle bojo! O morgado de Santa Eufemia veiu dar-me a noticia, jubiloso, como quem espera empalmar Silvina, extincto o bruto. O qual bruto já se confessou, a vêr se a gente se persuade que existe uma alma n'aquellas cavernas de sebo!
Parte o correio.
Teu do intimo
L. Pires.»
«P. S. O linheiro das Hortas ainda não appareceu com a corda.»
Se a carta de Silvina fosse uma dorida invocação ao amor de Jorge, simulando razões e desculpas, ou accusando o silencio do desleal amante, que a despresara sem motivar o menospreso immerecido, é de presumir que o brioso moço nem respondesse á carta, nem se doesse dos hypocritas queixumes de uma caprichosa estouvada. Porém, o estilo, assim magoado como arrogante d'aquella carta, turvou de tal sorte a cabeça e o coração do academico, que já elle a si mesmo se accusava de indiscreto, de ingrato e de extremamente facil em acreditar o tio. E—o que é mais é—sentiu rancor áquelle leal amigo da Maya, que, por conta d'elle, se andava expondo no Porto a ser expulso de todas as casas!
Quantas idéas lhe occorreram todas advogavam a innocencia de Silvina. Absolvida e amada eram a mesma cousa. Agora já a esperança de ir vêl-a ao Porto lhe era um desafogo, e não sei mesmo se contentamento. O pobre moço, como nem sabia se quer contrafazer-se, denunciou nos exteriores de inquieto regosijo quanto a resolução do tio lhe era grata. A mãi, compondo a roupa no bahu, chorava sempre; os irmãos choravam ao pé d'elle, e elle fugia de todos para que o não vissem alegre.