Ora ahi vai agora o conto direito. O antigo jornalista, amigo da defuncta baroneza de Amares, estava no Porto de visita em casa de Bernardo Joaquim Ferreira, ahi nos ultimos dias de Outubro de 1855.
D. Marianna, esposa do snr. Ferreira, e suas quatro filhas, e dous meninos, e varias outras pessoas, estão sentadas em roda de uma grande mesa jogando o quino. O jornalista está sentado n'um sophá, conversando com o dono da casa, sobre cousas do Brazil, d'onde o primeiro tinha vindo depois de cinco annos de ausencia. A conversação foi interrompida pela entrada de uma filha do snr. Ferreira, que a mãi e irmãos receberam com muitas vozes de alegria, ás quaes ella respondeu dando um beijo na fronte da mãi, e outro nos labios das irmãs. Com a bem vinda entrou tambem o marido. O litterato, já de pé, deu dous passos, e disse á dama que entrára:
—Quero vêr se me conhece ainda, minha senhora.
—Se o conheço!—exclamou Rachel.—O mesmo que foi para o Brazil; o mesmo que era ha cinco annos... Não se admire da nenhuma surpreza com que lhe fallo porque eu já sabia que o vinha encontrar. A mãi, quando o senhor chegou, mandou-m'o dizer para a quinta, e deu-me sempre noticias suas. Agora pertence-me a mim perguntar-lhe se me acha muito mudada.
—Quando, ha cinco annos, me despedi de v. exc.ª—disse o poeta—se bem me recordo, tive a honra e o prazer de ser propheta, dizendo-lhe que a viria encontrar cinco, dez, ou vinte annos depois, bella como a deixava, minha senhora. Noto-lhe apenas uma differença sensivel.
—Qual?—perguntou D. Marianna com solicitude de mãi.
—Acho-a mais bella—respondeu o poeta.
Por entre os dizeres usuaes que vem sempre depois de um dito feliz como aquelle, ouviu-se a voz aspera do snr. Manoel Pereira, marido de Rachel, dizendo:
—Então, vamos a isto?—E escolhia cartões do quino.
Queria dizer na sua o snr. Manoel Pereira que bastava já de comprimentos, em que a formosura de sua mulher era encarecida por um homem da antipathia d'elle.