As senhoras sentaram-se, e Rachel, obrigada, pela indicação do marido, ficou com as costas voltadas para o jornalista.
—Não vem jogar?—disse Rachel ao hospede.
—Vou, sim, minha senhora.
As damas deram-lhe lugar immediato a Rachel. Manoel Pereira estorcegou machinalmente um cartão entre os dedos convulsos, e fez-se escarlate, cravando os olhos no rosto descuidado de sua mulher.
O jornalista viu tudo isto, e riu-se para dentro.
Agora descreve-se Rachel; depois Manoel Pereira; por fim alguns traços geraes d'esta familia, e fechará o capitulo.
Rachel tem vinte e quatro annos. É encorpada, mas a robustez não desdiz da gentileza. Não tem attitude alguma de estudo, e parece esculptural em todas ellas. Nos mais communs movimentos ostenta graça, e garbo que vem de seu natural, e ninguem o dirá se a não tiver visto em toda a sua desaffectada singeleza no recesso das suas occupações caseiras. Quando Rachel está n'um baile... N'um baile foi que eu a vi a primeira vez. Era ella solteira, e teria quinze annos. Isto já lá vai ha quinze. Se eu me não lembrar do que ella era então, melhor me será despedir de mim esta bruta alma que nem para a saudade já serve. As minhas reminiscencias dão-me Rachel vestida de branco. Não lhe hei-de aqui chamar anjo, porque não foi essa a impressão. Era tudo magestade, tudo estatuario n'aquella criança; não a vi a descer do céo, onde os poetas teimam em ir buscar tudo que é excellente, como se o céo não fosse um puro congresso de espiritos que valem de certo lá muito mais do que pesam, mas que passariam desapercebidos nos nossos bailes, se não tivessem a esperteza de entrarem em corpos como o de Rachel. Eu quando a vi lembrou-me a Grecia, as artes, em requinte de pompas, a numerosa familia das Venus, todos esses marmores eternos, que hão-de sobreviver á mythologia dos anjos, dos archanjos e dos seraphins. Os olhos de Rachel... estou-os vendo; nem as franjas sedosas e longas das palpebras m'os escondem; poderiam as arcadas espessas e travadas do sobr'olho quebrar a luz d'aquelles olhos; mas nem assim! Como tu olhas, Rachel! Diz a antiguidade que na Scythia havia umas mulheres que matavam olhando se o rancor lhes fuzilava nas pupillas; porém tu que paixão tiravas da alma toda amor, para a lançares de ti como um incendio que te abrasaria, se eu, se todos, que te viam, não tomassem de joelhos um quinhão d'esse fogo! Que haverá alli de mysterios n'aquelles olhos, se o fluido electrico não basta a dizer o que é que vem de lá como corpo estranho que vos entra no seio, e vos não cabe na alma, e quer fugir ás ancias do coração que o aperta, e vos leva do amor ao transporte, do extasis ao phrenesi, do rir ébrio da felicidade ás lagrimas incessantes de noites desveladas! E, depois, porque não eram só os olhos o condão d'esta mulher? Diante de Deus todos somos iguaes! Na alma se quizerem, e o Creador, lá se avenha com os que o injuriam assim; mas que desigualdade diante do divino artista! Lembra-me que a um lado de Rachel estava uma menina de olhos vesgos; do outro lado uma senhora com um nariz impio; mais longe outra menina em torturas para esconder quatro dentes enclavinhados; além aquell'outra franzindo os labios, e exercitando uma laboriosa mechanica do sorriso para corrigir a natureza que lhe dera uma bocca limitrophe das orelhas. E ella, Rachel, toda primores, a estremecida creatura, com uma luz serena de céo n'aquella face em que se espelhava o seu Creador, o Deus que nos fez para a adorarmos, a rever-se n'ella! Abençoada sejas tu de todas as venturas, que tão perfeita és, tão cheia de tua belleza, tão digna dos thronos da terra, já que o Creador, o teu Pygmaleão, te não arrebatou para si! Onde está, ó Senhor Deus das maravilhas, o homem digno d'aquella obra tua, aqui posta entre nós que apenas temos thronos, imperios, talentos, epopeas, as riquezas da Asia, e o sangue das nossas veias para lhe offerecer! De que barro, ó mão divina, fizeste o homem que ha-de primeiro embriagar-se nos aromas que recende aquella virgem? Onde está o homem que...
O homem elle aqui está. É o snr. Manoel Pereira. Já quinou tres vezes. Feliz no jogo, infeliz no amor; é certo o proverbio... até com elle!
Manoel Pereira tem cincoenta e cinco annos! estatura mean, cabeça quadrilatera, e plana como um queijo do Além-Tejo desde o occipicio até á cisura do coronal. As arcadas zygomaticas (vejam um compendio de anatomia comparada) entestam com o rebordo esponjoso dos olhos arrastando cada uma para o seu lado a venta correspondente que termina em fórma de fava. O nariz não tem canas; parece que é formado de parafusos. Começa do centro da testa por uma verruga, transforma-se em lobinho, ladea em pequenos abscessos escarlates, e pega no beiço superior, repuxando por elle de modo que o dono não póde exercitar as funcções olfactorias sem enviezar o beiço. Este nariz ha-de ser lithographado e distribuido aos assignantes, concluido o romance. O nariz é o homem. Quem o vir organisa o complexo de Manoel Pereira, como Cuvier recompunha o reptil iguanodo, e o megaterio.
Temos á roda da mesa a snr.ª D. Marianna e quatro filhas. É de notar em Rachel o typo perfeito d'aquella familia. A mãi, senhora de quarenta annos, é bonita ainda. Se a perfeição das raças é admissivel, nunca mais sensivel foi a gradação do aperfeiçoamento como entre D. Marianna e Rachel. Das outras filhas, uma é formosa, se bem que já ferida da tisica, que d'ahi a mezes a levara para o lado de uma sua irmã que a mesma enfermidade matou, quando lhe sorriam duas primaveras, a das flôres, e a dos prazeres da vida. Outra é uma linda criança de doze annos, com os olhos de Rachel. A que porfia em belleza desvantajosamente com a mais bella é já casada, e tem vinte annos. Ha uma outra de aspecto vulgar, posto que o não pareça entre outras que não sejam suas irmãs.