—Tive tambem occasião de conhecer no hotel da Aguia d'Ouro o filho da amiga de v. exc.ª Fallei com elle, e fez-me bem o perfume d'aquelle coração em flôr. Que candura, que adoravel innocencia a dos vinte annos de Jorge... creio que se chama Jorge! E, ao mesmo tempo, que singularissimo typo de rapaz eu conheci com elle, e todos os dias encontro por ahi atraz de uma prima de Silvina, e de um tal Guimarães, linheiro, ou pregueiro, ou cousa que o valha... Que homem se fará d'alli, se o céo o não leva d'este mundo e d'esta sociedade que tanto precisa de um cenaculo d'aquelles apostolos!... V. exc.as de certo não conhecem Leonardo Pires de Albuquerque, fidalgo da Maya, descendente de D. Martim Pires da Maya, que gerou D. Pedro Pires, que gerou D. frei Martim Martins, mestre da ordem do Templo no seculo XIII? De certo não conhecem...

—Nem é preciso conhecerem—exclamou Manoel Pereira—É um patife, que concorreu muito para a doença do meu amigo Andraens!

—Eu não pensava—replicou o poeta—que Leonardo Pires era um alimento indigesto!... Se bem me recordo, v. s.ª disse ahi que a enfermidade do snr. Andraens era uma indigestão!

—Como de facto; mas, pelos modos, o tal brejeiro insultou-o no baile, o homem atrigou-se, e sahiu cá para fóra afflicto, e nunca mais foi bom.

—Não sabia isso; apenas me disseram que elle recommendára ao snr. Andraens que não comesse tanto; e quer-me parecer que este conselho, longe de ser insultuoso, tendia a prevenir a indigestão fatal que se deu.

—Deixemo-nos de contos...—instou o marido de Rachel.

O sorriso d'esta era já forçado por vêr que o jornalista não tinha a cortez caridade de conter as ironias que Manoel Pereira não percebia.

—E D. Antonia que diz, mãi?—interrompeu Rachel.

—Diz que Jorge Coelho vem para esta casa.

—Para esta casa?!—acudiu Manoel Pereira abrindo a bocca, e arregaçando o nariz até á testa.