Rachel, prevendo que seu marido aproveitava o ensejo para uma enfadosa e desconchavada diatribe contra os bailes, cortou-lhe logo o fôlego comprido das tolices com esta fina ironia:
—Nem toda a gente leva aos bailes as tripas dos teus amigos... Com que então—continuou ella, voltando-se para o jornalista—o amor não será capaz de vencer a indigestão do noivo?
—Segundo ouço ao snr. Manoel Pereira—respondeu o litterato em tom lastimoso—a gentil menina está em risco de vêr o coração, que tão caro lhe era, romper-se, batido pelas explosões do estomago que rebenta, deixando a seu dono a gloria de morrer como Tito.
Rachel e uma das irmãs sorriam; Manoel Pereira desconfiou do riso da mulher, e disse mal encarado, com o nariz já roixo:
—Se elle quizesse mulher tão bonita e mais rica que ella, não lhe faltavam por ahi ás duzias.
—Ninguem contesta o dito de v. s.ª—redarguiu o escriptor.
—Mas o senhor parece que estava caçoando com o meu amigo...—tornou Manoel Pereira.
—É injusto o cavalheiro. Eu se tivesse quatro irmãs dar-me-ia por ditoso se o seu amigo quizesse casar com todas quatro, e lamento não saber o segredo de um tal Lucius que Plinio viu transformar-se em mulher; por que se me eu podesse felizmente mudar em mulher, havia de galantear o amigo de v. s.ª, e morrer de amores por elle se uma indigestão rival m'o arrebatasse.
Rachel soltou uma risada contagiosa: riram todos, salvo Manoel Pereira, cujo nariz reluzia ao reflexo da luz, em differentes côres desde o açafrão até ao talo da couve lombarda.
O jornalista continuou, fallando para D. Marianna: