—Tem a bondade de ir á hospedaria, e acompanhar o filho da minha amiga, o filho d'uma senhora a quem eu devi na minha mocidade o que não posso pagar-lhe d'outro modo?

O jornalista ergueu-se, e disse, tomando o chapéo:

—Se elle estiver doente, ou na cama fatigado, mandarei um bilhete para que o não esperem. Até já, ou muito boas noites, minhas senhoras.

Sahira o jornalista, e D. Marianna enxugando lagrimas que não tinham na apparencia muito cabimento alli, fallou assim:

—Eu nunca disse a minhas filhas os favores que devo á mãi do meu hospede; escutem-me, e depois dirão se o filho de tal anjo não será digno de ser recebido como seu irmão. Eu fiquei orphã e pobre aos onze annos. Entrei nas ursulinas de Braga, entregue á caridade da prelada, que me achou com habilitações para ser uma simples criada grave de convento. D. Antonia de Sepulveda tinha tambem entrado, n'essa occasião, e era rica. Tratei-a com respeito, e ella a mim com familiaridade, para chegar ao fim de me offerecer metade da sua mesada, e habilitar-me a ser senhora entre as outras, que me olhavam com desestima, e com a falsa piedade das ricaças do convento. Aceitei os favores da minha amiga, e tão suave era o dever-lh'os, que nunca me julguei devedora, se não depois que vim a esta sociedade conhecer o valor dos beneficios que recebi de Antonia. Vivi cinco annos á sombra da generosidade d'ella: prendei-me á sua custa, instrui-me com ella d'essa apoucada educação que nos davam no convento; e já depois que a minha amiga sahiu para casar obedecendo ás ordens de seus paes, continuei a receber as mezadas e os presentes que ella recebia. Casei tambem passado um anno, fui feliz, enriqueci, presenteei-a, mas a cada lembrança de amiga que lhe eu mandava, respondia ella com mais valiosos mimos da sua casa. Penso ha vinte e quatro annos no modo de ser util á minha querida Antonia; a Providencia depara-me agora occasião de velar as commodidades do filho d'ella. Haja ahi uma pessoa de boa fé a dizer-me que devia ser outro o meu procedimento...

—Ninguem se atreve a tanto.—disse Rachel com enfado.—Eu, se minha mãi, por desgraça nossa, não existisse, levaria para minha casa o filho da nossa amiga, da protectora de nossa mãi. Se eu tivesse um marido que me quizesse roubar o prazer da gratidão em tão pequeno serviço, amaldiçoaria a hora em que meus paes me subjugaram a tal homem...

—Não te irrites assim, Rachel...—disse Bernardo Ferreira, ferido pelas palavras da filha, que lhe apontavam direitas á consciencia, onde as fibras do remorso doiam sempre.

Entretanto, Manoel Pereira, franzindo o nariz, dilatava as ventas hediondas, por onde vaporava a zanga.

O incidente, passados minutos, foi cortado por um bilhete do escriptor, dizendo que Jorge Coelho pedia desculpa, agradecia extremamente a delicadeza, e convalescia da fadiga para no dia seguinte cumprir as ordens de sua mãi.