XX.

O jornalista encontrou Jorge Coelho na cama, e Leonardo Pires sentado á banca. No semblante de ambos eram visiveis os signaes da altercação, que fôra interrompida pela chegada do terceiro. O filho de D. Antonia estava escarlate de febre, e anciado; o da Maya, se bem que de má catadura, esboçava distrahidamente, a lapis, uns perfis de narizes caprichosos. Jorge conheceu o litterato, e maravilhou-se da visita; Leonardo Pires, mais familiarisado com o sujeito, ergueu-se, abraçou-o, e exclamou:

—Aqui está o teu medico, Jorge! o teu Christo, Lazaro!

—Temos ecce homo?! Dar-se-ha caso que o snr. Pires—disse o jornalista sorrindo—me prepare algum calvario?... Como está o snr. Jorge Coelho? O aspecto denota inquietação...

—Não é inquietação;—atalhou Pires—é a sina maldita d'este desgraçado que nos tortura a ambos...

—Todos temos o nosso demonio familliar, snr. Pires—tornou o escriptor—Socrates queixava-se do seu, e eram nada menos de dous os demonios do divino philosopho, sendo o peor dos dous uma tal Xantippa... Querem vêr que o snr. Jorge é energumeno d'alguma Xantippa ideal, que... (O jornalista escreveu, e entregou a um criado o bilhete que foi recebido em casa de D. Marianna). Jorge entretanto, sorrindo contrafeito, respondia:

—Não, senhor. Eu sou apenas victima das loucuras do meu condiscipulo.

—Ó cavalheiro—clamou Pires irritado—diga ahi a esse ingrato quem é Silvina de Mello. Não se trata aqui de desfolhar lindas chimeras, e matar illusões queridas. A paixão de Jorge é uma nodoa que eu quiz delir-lhe do coração, á custa mesmo do meu descredito e abominação n'esta sociedade devassa. Tenha vossê a franqueza de dizer a esta criança o que eu tenho sido, já que eu tive a boa sorte de lhe referir ao senhor as minhas acções e palavras.

O romancista achou de riso a gravidade da appellação de Pires para o seu testemunho; mas perseverou-a na seriedade que o proposito pedia, e disse:

—O snr. Leonardo Pires tem dado provas exuberantes de amisade ao snr. Coelho, verberando com prosperos sarcasmos uma menina em tudo respeitavel, menos na sua virtude.