—É de mais!—atalhou Jorge—Póde ser que Silvina mereça censura como inconstante, sem com isso...

—Deixar de ser virtuosa?...—interrompeu o poeta...

—Justamente.

—Não julga bem, snr. Coelho. A deshonestidade não póde ser virtude. A mulher que enfeira o coração, e o põe á concurrencia, mirando ás vantagens do pedido, poderá ser uma sagaz professora de economia politica applicada ás mercadorias do coração, mas virtuosa é que ella de certo não é. Para mim tenho que a virtude póde coexistir com a miseria da mulher perdida que não tem a hypocrisia de expor o coração á venda; porém, quero eu que não prostituamos a palavra, que é santa, cedendo-a á que cuida cobrir as suas ulceras com o amicto de virgem. A snr.ª D. Silvina de Mello, que eu vim, depois de cinco annos de ausencia, encontrar occupando a vagatura d'outras aventureiras que eu cá deixei, é uma senhora aleijada.

—Ainda mais essa!—atalhou Pires—Eu nunca dei pelo aleijão de Silvina!

—Aleijada de espirito, quero eu dizer, snr. Albuquerque. Que outro nome se ha-de dar á lamentavel enfermidade moral d'uma menina que desperta das suas illusões de infancia, esfrega os olhos, e começa a procurar em redor de si um homem com alguns saccos de dinheiro? Ha ahi nada mais torpe, mais nauseabundo na face da terra! A mulher que assim faz tem alluido a sua virtude pela base, que é a vergonha. D'ahi ávante o pudor é uma mentira, as côres que sahem ao rosto são irrupções de sangue como as empigens, é um mechanismo da materia que o observador encontra mesmo nos prostibulos. Que é o que bate no peito d'essa mulher, desde que a ancia do dinheiro fez d'ella um estimulo de sensações? Quando ella fallar nos affectos da sua alma, qual é de nós o que voluntariamente se immolará ao escarneo de sua propria consciencia, respondendo ás Silvinas com expressões de candura e boa fé? O snr. Jorge Coelho tem a sinceridade de me dizer se me entende?

—Entendo; mas não creio que Silvina seja a mulher que o senhor qualifica.

—Eu não a qualifiquei ainda: o que eu quiz foi a certeza de que o meu joven amigo me entendeu a theoria: agora pertence á pratica o qualificar Silvina. Está o snr. Jorge Coelho no Porto. Fez bem em vir. Isto é uma questão de tempo. Faça as suas experiencias desde ámanhã em diante; mas tenha a condescendencia de me ir communicando os seus descobrimentos. Entretanto, restitua ao snr. Leonardo Pires o bom conceito em que o tinha, que estes amigos são raros. Outro objecto. A minha commissão não era vir discutir Silvina: Eu fui aqui enviado pela snr.ª D. Marianna Ferreira e seu marido a fim de conduzir o snr. Jorge a casa d'elles, onde foi recebida uma carta de sua mãi.

—Oh! bravo!—exclamou Pires.—Temos homem!

—Não atino com o seu enthusiasmo, snr. Albuquerque!—disse o escriptor.