—Que mulheres, que mulheres tu vaes vêr, ó Jorge!—continuou bracejando o da Maya.—As Ferreiras! a nata, a quinta essencia das mulheres bellas do Porto! E a Rachel! ai! aquella Rachel, casada com o nariz mais indecente que fez o acaso estupido, a quem o Creador entregou a repartição dos narizes! A Rachel! a mulher dos olhos de antilopa! as mais bellas carnes que ainda vestiram uma alma, se é que uma mulher d'aquellas precisa de ter alma para ser perfeita! Ó Jorge, tu estás curado! Quando vires Rachel, sentirás um coração novo, um coração caldeado nas fragoas dos olhos d'ella! Eu vi-a uma vez, e creio que se a visse segunda...

—Iria á missa dos Clerigos vêl-a terceira, não é assim?—interrompeu o poeta, rindo, com Jorge, dos transportes sinceros de Pires.—Rachel é uma bella senhora, e uma nobilissima alma—continuou o escriptor gravemente.

—Mas, segundo a sua theoria—atalhou de golpe Jorge Coelho—essa Rachel é uma das muitas aleijadas que por ahi ha. Não a conheço; mas sei que ella casou com um brazileiro hediondo e rico.

—Aquelle nariz!—disse Pires.—Tambem me quer parecer que a mulher pouco vale na alma, quando contemplo o nariz de Manoel Pereira!

—E eu creio que a sociedade—tornou Jorge—não desconsidera Rachel porque ella escolheu um homem rico, podendo ter aceitado a desinteressada pobresa e o coração opulento de muitos rapazes que a cortejavam. Já se vê que a opulencia d'um sordido não desluz aos olhos da sociedade a virtude d'uma senhora que se deu por ella.

—São contos largos...—disse o romancista.—Custa-me que o cavalheiro confunda Rachel com Silvina. Creia que offende uma martyr, snr. Coelho, Rachel supporta o supplicio de Mezencio, com a resignação que santifica a baixeza, se ella tivesse existido, e as culpas futuras, se ellas podem existir. Não levo em paciencia o aggravo feito á pobre menina. Vou contar-lhe em quinze minutos a historia do casamento de Rachel. Bernardo Joaquim Ferreira conhece o valor do dinheiro, e duvida da existencia d'umas paixões, que podem vingar e prosperar sem dinheiro.

Ás filhas chama-lhe suas, e não exclue d'esta propriedade o coração. O seu pensamento fixo d'elle é casar ricas as filhas. Rachel era querida de alguns amigos meus, espiritos dignos d'ella, que lhe teriam dado a ventura, se os encontros predestinados dos espiritos não fossem o mentiroso poetar de infelizes que nunca se encontram. Um d'esses amigos, fui procural-o ao hospital de alienados, quando desembarquei ha cinco mezes em Lisboa. Conheceu-me ainda, e as primeiras palavras que me disse foram: «Morreu Rachel! A minha alma foi com ella.» Pobre moço! bem sentia elle que já não tinha alma! Depois de dous annos de loucura, por ignorados motivos, esquecido de tudo que fôra, tinha uma só reminiscencia, como se todo o seu passado se concentrasse n'ella... Vamos ao ponto, e desculpem-me d'estas intercadencias melancolicas. Os senhores não sabem ainda o que é olhar para o passado aos trinta e cinco annos, e vêr uma longa fila de espectros uns gotejando sangue, e outros lagrimas...

O poeta dissera isto tão do intimo amargurado, que nem Leonardo Pires deixou de o escutar com magoa. Jorge, já dorido de suas tristezas, não era para espantar que desse em lagrimas uma prova de sympathia á dôr alheia.

Proseguiu o romancista:

Ha seis annos eram dous os homens indicados para maridos de Rachel. Quem os indicava, e negociava com ardis, e negaças ignobis, sobre serem immoraes, era o pai. Rachel detestava-os ambos. Manoel Pereira era um; o outro era brazileiro tambem, menos repulsivo, melhor alma talvez, e amigo do primeiro. Desde que se toparam a amar a mesma mulher, odiaram-se, intrigaram-se e depreciaram mutuamente os seus haveres, porque bem sabiam que Ferreira tinha a filha em almoeda. O primeiro que a pediu foi Manoel Pereira, abonando-se com cem contos. O segundo não dizia o seu valor. Foi o primeiro preferido, sem ser consultada a victima.