—Como isto é tamanho! Como se faria o mar? Por que será que o mar cresce e minga? Quantas pescadas haverá no mar? A gente sempre a comer peixe, e nunca se acaba!
Entrava José Francisco na solução d'estes problemas, quando a linha do seu horisonte foi cortada por um barco a vapor. Topetaram então com o sublime do engenho humano as suas meditações:
—E o vapor!?—dizia elle—Sempre os homens tem idéas! Pelos modos o que faz girar as rodas é o fumo do carvão! Uma cousa assim! E como a gente come boa carne a bordo d'um vapor inglez! Bons tempos eram aquelles em que eu viajava, e comia tanto, sem me sentir enfartado como agora que qualquer cousa me trabalha cá no interior!...
Estas considerações entristeceram José Francisco, e o espectaculo do oceano enfastiou-o. Ergueu-se, desceu do seu throno de caranguejos e algas, e foi dar alguns passeios na lingueta de pedra, onde então passeavam muitas familias.
Entre estas estava Francisca da Cunha conversando com Antonio José Guimarães, o linheiro; e Silvina de Mello procurando conchinhas na praia.
O linheiro foi comprimentar o commendador, e D. Francisca chamou a attenção da prima.
José Francisco, logo que viu Silvina, perdeu a cabeça.
É preciso explicar o que o leitor já devia saber, se esta historia fosse contada com mais arte.
Quando Andraens cahiu doente, Silvina mandou saber do seu estado, e teve quem lhe assegurasse que o illustre enfermo succumbiria ao typho, resultante da gastrite. Ao mesmo tempo, disse-lhe alguem que José Francisco fizera testamento, sendo uma das verbas testadas aos seus parentes de Cozelhas a quantia de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, de que lhe era devedor Pedro de Mello, declarando a quinta hypothecada ao pagamento da quantia, e juros da lei.
Silvina não mandou saber do homem; e Pedro de Mello, que viera ao Porto para apressar o casamento, tão indignado ficou da avareza do moribundo, que deu louvores a Deus de matar a tempo o villão, para que sua filha se não conspurcasse na lama de tal javardo. Era o sangue escandecido do sargento-mór d'Amarante que refervia nas veias do neto. E, ao mesmo tempo, como o morgado de Santa Eufemia andasse ahi nas ruas do Porto, exhibindo um rosto de amargura e uma gravata verde-gaio com alfinete de cabeça d'ouro rendilhada, Pedro de Mello disse á filha que seria prudente não dar de mão ao morgado, porque lhe constava que o pai tinha soffrido um insulto apopletico, e não poderia viver longo tempo.