Silvina, anjo de submissão, accedeu á vontade paternal, e trocou algumas palavras com Christovão Pacheco, quando ambos immergiam no mar, e recebiam a unção conciliadora da mesma onda. Succedeu assim o caso em que pegou o desamuarem-se:

O morgado, ao aproximar-se a onda, dava urros, e mettia-lhe a cabeça com furioso impeto, perneando fóra d'agua. Como Silvina estivesse perto d'elle, viu que o sapato d'ourêlo n'um d'esses pinotes de arlequim maritimo, lhe saltára de um dos... dous pés—digamos dous pés por deferencia á historia natural.—E, quando o sapato, entumecido de agua, ia ao fundo, Silvina disse á banheira que apanhasse o sapato do cavalheiro. A tempo foi isto que o morgado o andava procurando á tona d'agua; e, como ouvisse a magica voz da dama, e visse o sapato na mão da banheira, que lh'o atirava a elle, Christovão, bem assombrado, disse a Silvina:

—Obrigado á sua attenção, minha senhora!

—Não tem de quê—respondeu Silvina, sorrindo.—Porque não toma o senhor o seu banho mais quieto?

—Gosto d'isto assim;—respondeu o morgado.

—Eu cuidei que era o nervoso que o obrigava a dar cambalhotas na agua.

—Nada, não é, minha senhora; é que eu gosto de brincar com o mar; com o amor é que eu já não brinco.

—Nem deve brincar, porque o amor gosta de ser tratado seriamente; e o senhor zomba com as victimas d'elle...

—Eu é que zombo, minha senhora!... Não perca esta onda, que é boa.

O de Santa Eufemia arremetteu com a onda, e fez proezas de natação, deixando-se ir de costas no dorso da vaga, que o levou á praia.